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O plano de Helena David era ser jogadora de futsal. Começou a praticar a modalidade aos sete anos, chegou à primeira divisão e ambicionava representar a seleção nacional.
O diagnóstico de fibromialgia interrompeu esse percurso e deixou-a sem saber qual seria o passo seguinte.
No mais recente episódio do VÄLIDO Talks, Helena David conta como encontrou nos animais uma nova profissão e uma forma de reconstruir a vida depois de abandonar o desporto competitivo.
“Eu digo sempre que eles me salvaram, porque estava completamente perdida”, afirma, ao recordar o momento em que adotou a primeira cadela e começou a considerar a possibilidade de trabalhar na área do bem-estar animal.
Um diagnóstico depois de anos de dores
Helena David tinha dores musculares, cansaço e hipersensibilidade ao toque desde muito nova, mas associava os sintomas à carga de treinos e jogos.
Enquanto atleta da primeira divisão, chegou a ter treinos bidiários e acompanhamento regular de fisioterapia. Foi precisamente a dificuldade em tolerar massagens que levou um fisioterapeuta a aconselhá-la a procurar uma explicação clínica.
“Achei que era cansaço do desporto”, relata. A confirmação da fibromialgia surgiu depois de vários exames, num processo que descreve como um diagnóstico por exclusão.
A decisão de deixar o futsal continua a ser, segundo Helena David, uma experiência em processo de aceitação. Quando assiste aos jogos do irmão mais novo, admite que ainda sente vontade de regressar ao campo.
“Às vezes vou ver os jogos e dou por mim a chorar, porque tenho saudades e queria estar ali”, conta.
Dos cuidados veterinários ao petsitting
Após regressar a Évora, Helena David frequentou cursos de auxiliar de veterinária e de grooming, tendo trabalhado durante cerca de três anos no Hospital Veterinário da Muralha.
Os primeiros serviços de petsitting surgiram através de familiares, amigos e conhecidos que lhe pediam apoio durante as férias.
A recomendação entre clientes fez aumentar o número de pedidos. Durante algum tempo, conciliou os passeios e as visitas domiciliárias com o trabalho no hospital, antes e depois dos turnos.
Quando a carteira de clientes começou a permitir uma atividade profissional autónoma, decidiu deixar o hospital e dedicar-se ao projeto.
“Na altura, nem eu própria acreditava que poderia viver disto”, reconhece, lembrando que algumas colegas brincavam com a possibilidade de um dia sobreviver apenas de passear e cuidar de animais.
A realidade acabou por confirmar essa possibilidade. Helena David estima ter atualmente cerca de 200 clientes, embora mantenha também uma ligação profissional a uma clínica em regime parcial para assegurar maior estabilidade.
Cuidar do animal sem o retirar de casa
O serviço de Helena David distingue-se por ser realizado ao domicílio.
Em vez de receber os animais na sua habitação, desloca-se às casas dos tutores e assegura alimentação, limpeza, medicação, passeios e companhia.
A profissional considera que a permanência no ambiente habitual pode ajudar alguns animais durante a ausência das famílias, sobretudo aqueles que não estão habituados a hotéis ou boxes.
“O petsitting não é só dar comida e fazer passeios. É tentar colmatar a ausência dos donos”, afirma, acrescentando que vários animais acabam também por criar uma relação com quem os acompanha regularmente.
Além das visitas, realiza passeios individuais e em grupo. Tem turmas de cães de manhã e à tarde, que recolhe nas respetivas casas, leva a passear e volta a entregar aos tutores.
Helena David salienta, contudo, que juntar animais exige conhecimento sobre comportamento, comunicação e socialização. A formação adquirida na área veterinária permite-lhe ainda administrar medicação e lidar com animais mais reativos ou agressivos.
A responsabilidade de entrar na casa dos clientes
Um dos maiores receios no início da atividade estava relacionado com a entrada nas residências dos clientes.
“Assustava-me a responsabilidade de ter a chave das casas das pessoas”, admite, explicando que inicialmente não sabia como poderia proteger-se caso surgisse uma acusação relacionada com objetos ou acontecimentos no interior das habitações.
A experiência e a confiança construída com os clientes reduziram esse receio. Atualmente, guarda três caixas com chaves de diferentes casas.
Para Helena David, esta confiança demonstra que o petsitting não se resume à relação com os animais. Implica igualmente uma ligação com os tutores, que entregam a uma terceira pessoa o acesso à casa e a responsabilidade pelo bem-estar de um elemento da família.
O crescimento quase levou ao esgotamento
O aumento da procura trouxe também dificuldades.
Durante um período do verão passado, Helena David chegou a realizar visitas em 20 ou 25 casas por dia, suportando temperaturas próximas dos 40 graus e percorrendo cerca de 100 quilómetros diários dentro de Évora.
A acumulação de trabalho, aliada à dificuldade em recusar os pedidos dos clientes habituais, conduziu ao que descreve como o início de um burnout.
“Não me conseguia mexer, tinha ataques de pânico e estive uma semana de cama”, relata. A situação obrigou-a a cancelar serviços de pessoas que já tinham viagens e férias organizadas.
Helena David reconhece que a gestão dos limites continua a ser uma das maiores dificuldades. Quando um cliente lhe diz que não poderá ausentar-se sem o seu apoio, sente que recusar significa também comprometer o bem-estar do animal.
“Prefiro dar um pouco mais de mim e saber que eles estão bem”, afirma, embora admita que essa disponibilidade permanente pode voltar a colocá-la numa situação de exaustão.
Uma profissão que não deve ser banalizada
Apesar do crescimento da atividade, Helena David considera que o petsitting continua a ser visto por algumas pessoas como um passatempo.
Quando explica que é petsitter e dog walker, ouve por vezes a pergunta sobre aquilo que faz “a mais”, como se o serviço não pudesse constituir uma profissão.
A empreendedora alerta igualmente para a entrada de pessoas sem formação num mercado em expansão, atraídas pela imagem de um trabalho simples e permanentemente rodeado por animais dóceis.
“Não é assim tão fácil”, avisa, salientando que existem animais agressivos, situações clínicas, medicação e riscos que exigem preparação, conhecimento e capacidade de resposta.
“Gostava que a profissão não fosse banalizada, porque isso acaba por descredibilizar as pessoas que trabalham a cem por cento nisto”, acrescenta.
Um hotel para animais em Évora
O próximo objetivo passa pela criação de um hotel e de um centro de atividades para cães em Évora.
Helena David pretende desenvolver um espaço com zonas interiores e exteriores, quartos climatizados e condições diferentes das boxes tradicionais.
O investimento necessário e a procura de um terreno com dimensão suficiente continuam a ser obstáculos, mas a empreendedora afirma que apenas fará sentido avançar com um projeto que permita aos animais espaço, liberdade e atividades adequadas.
Na parte final da entrevista, Helena David identifica a empatia, a capacidade de trabalho e o respeito como algumas das características que orientam o seu percurso.
Para a empreendedora, ser válida significa “manter os nossos valores até ao fim, ser empática e ajudar as pessoas”, mesmo reconhecendo que, em várias situações, acaba por se colocar em último lugar.
A felicidade, acrescenta, passa por sentir-se realizada profissionalmente e nas relações que mantém, depois de ter acreditado, durante algum tempo, que não voltaria a encontrar um caminho após abandonar o futsal.




















