O PS reuniu-se e o país bocejou

Este último congresso do Partido Socialista não só foi um grande momento falhado de afirmação política, como também foi um retrato cru de um vazio que se tornou estrutural.

Este último congresso do Partido Socialista não só foi um grande momento falhado de afirmação política, como também foi um retrato cru de um vazio que se tornou estrutural.

Algo de muito errado vai no Largo do Rato. O vazio de ideias, de pensamento estratégico, a repetição de fórmulas gastas, slogans sem densidade e uma inquietante incapacidade de produzir qualquer visão mobilizadora para o futuro expõem totalmente a liderança de José Luís Carneiro.

Num contexto europeu de reconfiguração económica, pressão geopolítica e transformação tecnológica acelerada, o PS apresentou-se como um partido desligado do tempo histórico, refugiado em soluções administrativas para problemas que exigiriam reformas estruturais de que eles próprios fugiram durante os 8 anos em que foram governo de maioria parlamentar.

Mas o vazio não é apenas programático. O congresso expôs um partido empobrecido no seu capital político, sem figuras com autoridade intelectual, sem vozes com densidade, sem protagonistas capazes de gerar respeito fora do perímetro da militância. O que se viu foi uma coreografia de discursos previsíveis, fidelidades alinhadas com o momento, mas não com o futuro e promessas de renovação que não passam de rotação de nomes dentro da mesma bolha.

 O PS tornou-se um infeliz condomínio político, fechado, autocentrado, obcecado com equilíbrios internos, sem causas e totalmente desinteressado da exigência que deveria impor a si próprio. A indigência do debate, a ausência de figuras que se assumam, a infantilização do discurso político, tudo isto traduz uma degradação que não é apenas estética, é estrutural.

Este duplo vazio, de ideias e de pessoas, traduz-se inevitavelmente num vazio político mais amplo.

O PS, que durante décadas foi um dos pilares do sistema democrático português, parece hoje resignado a um papel de partido que vive de memórias e reflexos, sem ambição, limita-se a ocupar espaço, a tentar bloquear reformas, a alimentar uma narrativa com base no “contra”, para disfarçar a própria falência intelectual.

Quando um partido central perde densidade e qualidade, não é apenas ele que se fragiliza, é o próprio sistema que perde capacidade de resposta, de renovação e de representação.

O congresso não foi, por isso, apenas um evento interno de gestão de liderança de José Luís Carneiro. Foi um mau sinal.

Um sinal de desgaste profundo, de erosão, de um partido que não sabe muito bem ao que vem, nem ao que serve. Tudo o que ali se ouviu podia ter sido dito há dez ou quinze anos, sem que o país tivesse, entretanto, ficado mais rico, mais livre ou mais justo.

E quando um partido com responsabilidades históricas neste regime se limita a repetir-se, a proteger-se e a vitimizar-se, o risco não é apenas a sua irrelevância futura. É sobretudo a contribuição para o alargamento do ressentimento, para o populismo e para soluções fáceis que prosperam precisamente onde falta substância, ou seja, exatamente no vazio que o PS deixou crescer no centro do sistema democrático.

A história recente das democracias europeias mostra que, quando os partidos centrais abdicam da exigência e da ambição, o sistema não se regenera, degrada-se. Penso que será esse o legado do eleito Secretário-Geral do PS e do seu mandato.

Luís Nunes dos Santos

Mais notícias

O Estado não lucra 1 cêntimo com Ormuz

A guerra no Estreito de Ormuz é um conflito sério e que atinge Portugal...

A visão para Orquestra Regional do Alentejo

Como é público, exerci durante um ano funções de adjunto político no Ministério da...

Pax pública e pax política

Alguns partidos que compõem a política portuguesa têm habituado o país de que a...

As vozes como eco das palavras

António Lobo Antunes morreu este ano, mas hoje, faz 84 anos que nasceu. E, como...

Pressure no dia D

Fui ver o filme sobre o homem que ajudou a decidir, através da meteorologia,...

A qualidade também pode excluir

Há ideias contra as quais é difícil argumentar. A qualidade no Ensino Superior é...

De 29 a 31 de Julho de 1808 fomos para o Maneta

A Batalha de Évora de 29 de julho de 1808 constitui um dos episódios...

Estágios Blue Book: a tua oportunidade europeia

Os estágios são uma parte insubstituível do percurso de formação e educação para o...

Esta Odisseia é sobre Penélope e não sobre Helena

Ontem fui curioso ao cinema ver a “Odyssey” de Christopher Nolan, prevenido de que...