A história do cinema de terror português parece curta — e é mesmo. Durante décadas, Portugal praticamente não produziu filmes de terror, enquanto Espanha, Itália, Reino Unido e até pequenas indústrias regionais lançavam monstros, slashers e fantasmas às dezenas. O terror português teve de rastejar por entre censura ditatorial, uma indústria obcecada pelo “cinema sério” e a pura teimosia de uns poucos realizadores e fãs.
Mas quando finalmente apareceu, apareceu com identidade própria — uma mistura de melancolia, humor negro, superstição rural e experimentação febril. Eis a evolução deste género tardio, desde o quase vazio dos anos 60 até à vitalidade atual.
1. O Longo Silêncio: 1960–1980
Durante o Estado Novo (1933–1974), o cinema português era pequeno, controlado pelo Estado e profundamente conservador. O terror — visto como sensacionalista e “pouco moral” — era tratado como um corpo estranho.
Alguns filmes tocavam no estranho ou no sobrenatural, sobretudo obras “de autor” com toques de surrealismo ou inquietação. De vez em quando, coproduções estrangeiras filmavam em Portugal. Mas nada disso constituía um movimento de terror. Para ver vampiros ou zombies nos cinemas de Lisboa ou Porto, era preciso ver filmes importados de fora.
Mesmo após a Revolução de 1974, com o fim da censura, o novo cinema português voltou-se para o político, o social, o histórico — raramente para o género. Terror continuava a ser sinónimo de cinema “não sério”.
Portugal entrou nos anos 90 sem tradição de horror e sem grande expectativa de a desenvolver.
2. As Primeiras Sementes: Final dos Anos 90–Início dos 2000
O despertar do terror em Portugal não veio dos estúdios — veio dos fãs. Colecionadores de VHS, fanzines, estudantes de cinema e aficionados do gore começaram a organizar sessões clandestinas, trocar cassetes de Fulci, Romero, Argento, slashers americanos e filmes asiáticos. Pequenos festivais começaram a incluir sessões de culto a horas tardias.
Dessa cena underground surgiu um dos primeiros longas de terror modernos: I’ll See You in My Dreams (2003). Feito na zona do Porto por uma equipa jovem que idolatrava o cinema de zombies, o filme acompanha um caçador de mortos-vivos num cenário rural dominado por contágio e decadência.
Não foi um sucesso comercial, mas tornou-se cult. E provou algo importante: o terror português podia existir sem autorização do “cinema oficial”.
3. O Primeiro Marco: Coisa Ruim (2006)
Pergunte a um fã de cinema de terror português qual foi o primeiro grande filme do género, e a resposta mais comum será Coisa Ruim. Não foi o primeiro a ser filmado, mas foi o primeiro a ter apoio sólido, distribuição ampla e impacto cultural.
A história é puro folk horror: uma família lisboeta muda-se para uma aldeia e encontra-se envolvida em feitiçaria, maldições, culpas antigas e segredos enterrados. A tensão nasce não de sustos fáceis, mas das paredes húmidas da casa, da superstição rural, da culpa católica e do desconforto social da província.
Coisa Ruim representou um momento crucial:
- Assumiu-se como horror português, enraizado em mitos e tradições locais.
- Teve elenco conhecido, qualidade técnica e lançamento nacional.
- Abriu portas para outros filmes do género.
Depois dele, o terror deixou de ser tabu.
4. MOTELX: A Comunidade Ganha Casa
Em 2007, Lisboa passou a ter o MOTELX – Festival Internacional de Cinema de Terror, que rapidamente se tornou o coração do género em Portugal.
O festival não só exibe o melhor do terror mundial — sobretudo nutre, promove e legitima o terror português. A competição nacional de curtas tornou-se um incentivo importante para jovens realizadores experimentarem o género sem vergonha artística.
MOTELX deu identidade, visibilidade e continuidade ao terror português.
5. Os Anos 2010: A Identidade Consolida-se
Na década de 2010, o terror português já tinha confiança suficiente para experimentar diferentes caminhos. Três filmes destacam-se:
– O Barão (2011)
Um delírio expressionista a preto-e-branco, inspirado no terror clássico dos anos 30, mas com um olhar feroz e surrealista. Um aristocrata tirânico aterroriza uma aldeia — um pesadelo estilizado, estranho e provocador.
– A Floresta das Almas Perdidas (2017)
Um slasher minimalista que começa como drama existencial entre suicidas e transforma-se em violência fria. Também filmado a preto-e-branco, combina estética de festival com crueldade de género.
– Mutant Blast (2018)
O oposto total: uma comédia gore selvagem com mutantes, militares apocalípticos e sátira absurda. Feito com espírito irreverente, tornou-se um sucesso de culto e provou que o terror português podia ser louco, barulhento e divertido.
Esses filmes mostram a versatilidade do género português: ora sério e artístico, ora caótico e delirante, raramente confortável.
6. Ramificações e Novos Terrenos
A par dos títulos principais, dezenas de curtas e micro-orçamentos exploraram temas variados:
- lendas rurais,
- catolicismo sombrio,
- traumas familiares,
- crise económica,
- monstros simbólicos.
Com poucos recursos, o terror português investiu em atmosfera, inquietação e simbolismo — e menos em efeitos especiais.
7. Anos 2020: Polimento e Alcance Internacional
Uma mudança marcante surgiu com Amelia’s Children (2023), um thriller gótico sobre identidade, família e herança sangrenta, filmado parcialmente em inglês e com ambição internacional.
Outros filmes recentes seguem essa linha mais polida, sugerindo que o terror português deixou de ser curiosidade underground: tornou-se exportável.
8. Filmes Essenciais do Terror Português (1960–Hoje) a Poche Pictures
- I’ll See You in My Dreams (2003) – zombie movie de culto.
- Coisa Ruim (2006) – marco absoluto do folk horror português.
- O Barão (2011) – pesadelo expressionista.
- A Floresta das Almas Perdidas (2017) – slasher minimalista e existencial.
- Mutant Blast (2018) – caos splatter e humor absurdo.
- Amelia’s Children (2023) – terror gótico com ambição internacional.
Juntos, estes títulos revelam a jornada de um género que demorou meio século a nascer, mas que agora anda de cabeça erguida, barulhento e cheio de vida.



















