Médico do hospital de Évora com queixa de negligência demite-se e ULS averigua caso

 O médico oncologista do hospital de Évora acusado de negligência pela família de um homem que morreu nas urgências apresentou a demissão, revelou hoje a unidade local de saúde (ULS), que abriu um inquérito ao caso.

Em resposta a questões colocadas pela agência Lusa através de correio eletrónico, a Unidade Local de Saúde do Alentejo Central (ULSAC), na qual o hospital de Évora está integrado, indicou hoje que “o médico apresentou um pedido de cessação de funções, com produção de efeitos a partir de 30 de setembro”.

“Quanto aos motivos invocados [pelo médico oncologista], tendo em conta a relação laboral entre o profissional e a instituição, a ULSAC não pode divulgar informação adicional”, disse.

Na edição de hoje, o jornal Correio da Manhã noticiou que o médico tinha apresentado a demissão do Hospital do Espírito Santo de Évora (HESE).

Também nos esclarecimentos enviados à Lusa, a ULSAC revelou que, no dia 05, foi determinada “a abertura de um processo interno de averiguação”, após a reclamação da família do doente oncológico que faleceu nas urgências hospitalares, em 15 de julho.

Segundo a ULS, o objetivo é “apurar, de forma rigorosa e imparcial, as circunstâncias relacionadas com a assistência prestada ao doente”.

“O processo encontra-se em curso, não sendo possível, nesta fase, indicar uma data exata para a sua conclusão”, afirmou a ULSAC, assegurando, contudo, que “estão a ser desenvolvidas todas as diligências necessárias com a maior celeridade possível”.

O doente, de 64 anos, diagnosticado com cancro na orofaringe, morreu nas urgências do HESE, queixando-se a família de negligência grosseira pelo médico oncologista.

Contactado hoje pela Lusa, o filho da vítima, André Coelho referiu que foi informado pela ULSAC, na segunda-feira, da abertura do processo interno de averiguação.

“Ficamos a aguardar as conclusões do inquérito do hospital, assim como dos inquéritos que estão a ser conduzidos por outras entidades”, afirmou.

A morte do seu pai, frisou, “deve ser analisada e investigada pelas diversas entidades externas” às quais foram “apresentadas queixas e reclamações”.

“Tendo em conta as análises e os registos clínicos do meu pai, que já possuímos, consideramos que existiu uma negligência grosseira pelo médico, que, além disso, desvalorizou a febre e a infeção ativa que ele tinha”, alegou.

A família avançou com queixas ou reclamações junto do Departamento de Investigação e Ação Penal (DIAP) Regional de Évora, da Ordem dos Médicos (OM), da Secretaria-Geral do Ministério da Saúde, da Inspeção-Geral das Atividades em Saúde (IGAS), Entidade Reguladora da Saúde (ERS) e Provedoria de Justiça.

A ULSAC assinalou à Lusa que, “enquanto não estiver concluída a averiguação em curso, não antecipará quaisquer conclusões sobre este assunto”.

“A ULSAC compreende a gravidade das preocupações manifestadas pela família e reitera o seu pesar pelo falecimento do doente, apresentando sentidas condolências aos seus familiares”, lê-se ainda na nota.

Em 22 de julho, a Lusa noticiou que a OM está a analisar uma queixa contra o médico oncologista do HESE, com acusações de negligência.

A queixa, a que a agência Lusa teve acesso, refere que a conduta do clínico “indicia grave e reiterada negligência” e “erro de critério com desvalorização de sintomatologia crítica (febre em doente oncológico)”.

A “omissão gravíssima do dever de assistência imediata em situação de emergência e uma conduta manifestamente violadora do respeito e humanização dos cuidados de saúde” são outras das acusações, é referido.

Nesse dia, a mulher da vítima, Célia Caleiro, considerou que “não foram feitas todas as diligências” em relação à prestação de cuidados de saúde, na última semana de vida do marido, e no atendimento no dia da morte, pelo médico especialista.

“Não digo que ele não morresse do problema oncológico, mas [se assim fosse] eu dizia: ‘O meu marido teve toda a assistência de que precisou’”, acrescentou, alegando que tal não aconteceu.

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