A companhia Mala voadora, a cumprir 20 anos de existência, inaugura no sábado um novo espaço, o Campo Cultural de Campilhas, junto à barragem de Campilhas, no Cercal do Alentejo, concelho de Santiago do Cacém.
O diretor artístico da Mala voadora Jorge Andrade, que dirige a companhia com José Capela, explicou à Lusa que o ponto de partida foi sair de um grande centro urbano, dotando a companhia de um edifício que pudesse acolher residências artísticas de portugueses e estrangeiros, mas também trabalhar “com o espaço e a comunidade onde está inserido o novo edifício”.
“Campilhas proporciona-nos estarmos isolados num ambiente mais próximo da natureza para nos podermos dedicar ao trabalho com outro tempo e termos uma outra experiência da vivência que é fazer teatro sem ser num contexto urbano […] e dar-nos ideias para trabalhos futuros”, frisou.
O Campo Cultural é constituído por um pequeno edifício antigo, reconstituído em pedra como o original, e dois edifícios contíguos com uma sala de ensaios e espetáculos com 100 metros quadrados, oito quartos duplos, cozinha e sala, referiu Jorge Andrade.
Adquirido inicialmente por Jorge Andrade e José Capela para aí habitarem, o edifício e o espaço envolvente original foi recuperado de acordo com um projeto do arquiteto João Pedro Fonte e do próprio José Capela, que é arquiteto de formação.
Tal como fazem com o edifício no Porto, sede da companhia, não passa pela cabeça dos fundadores terem um espaço que seja utilizado apenas por eles.
Daí que as residências internacionais no Campo de Campilhas comecem já na segunda-feira, com duas artistas norueguesas, Mirte Bogeart e Nicola Gunn, no âmbito de uma parceria com o BIT Teatergarasjen.
Ainda em setembro, será apresentado no local o novo espetáculo da Mala voadora, “Lithuania Blood Stories”, um dueto em criação por Jorge Andrade e pelo músico lituano Jonas Jurkūnas.
Há dois anos que a Mala voadora tem vindo a desenvolver trabalho em Santiago do Cacém, contando igualmente vir a desenvolver trabalhos para a população escolar e para os seniores do concelho.
“Aquilo que procuramos fazer com os artistas que vierem cá para residir é que depois possam fazer uma apresentação do seu trabalho, que de outra forma não teriam oportunidade de circular aqui no concelho”, observou o ator.
Como o Campo Cultural de Campilhas se encontra num local isolado, a ideia da Mala voadora é usá-lo com a comunidade, como por exemplo em confeções de refeições ou até em alguns “bailaricos”.
A culinária marca presença já na inauguração do espaço no sábado à noite, cabendo a Jorge Andrade confecionar um jantar na performance “Dining room”, numa colaboração da Mala voadora com a companhia australiana A is for Atlas. A performance repete no domingo e, na segunda-feira, em Lisboa, e, terça-feira, no Porto.
Trabalhar o local descobrindo formas diferentes de confecionar pratos permitindo depois um posterior convívio, debates e conversas sobre o que move a comunidade local é outro dos fins que Jorge Andrade quer ver cumpridos no Campo Cultural.
Enquanto não derem o “passo definitivo de viver no campo”, Jorge Andrade diz que vão experimentar todas as possibilidades que o espaço lhes permita.
O público infantil do concelho já deu o seu contributo para o local, tendo várias crianças plantado uma árvore, a que deram o seu nome, cujo crescimento irão acompanhar.
Desde 2020 que a mala voadora desenvolve em Santiago do Cacém o projeto Campilhas Internacional, um dos vencedores do concurso Connecting Dots – Mobilidade Artística e Desenvolvimento de Públicos (EEA Grants), e que contou desde o início com o apoio da Câmara Municipal de Santiago do Cacém, no distrito de Setúbal.
O programa coloca a comunidade local em contacto e interação com artistas portugueses e dos países parceiros, como Noruega, Liechtenstein e Islândia.
Entre as atividades do programa, destaque para as elaboradas semanalmente para as crianças das escolas dos meios rurais mais isolados e para o público senior frequentador de centros de dia do concelho (atividades coordenadas por Rita Monteiro), o projeto Produktivismo destinado a pessoas desempregadas ou em processo de reinserção social (coordenado por Lígia Soares), e a formação de um novo grupo de teatro amador com jovens membros da comunidade local.
O teatro radiofónico é outra das vertentes do programa.
















