A ligação ferroviária entre Évora e Caia, integrada no Corredor Internacional Sul, entra agora numa fase considerada determinante antes do início da exploração comercial, com a realização de ensaios técnicos, vistorias e processos de certificação.
A informação foi avançada numa reportagem emitida pela SIC, que acompanhou o ponto de situação da maior obra ferroviária realizada em Portugal nos últimos cem anos.
Apesar de a conclusão física da infraestrutura estar prevista até ao final deste ano, o início da circulação ferroviária só deverá acontecer em meados de 2026. Em causa está a necessidade de garantir que todos os sistemas cumprem os requisitos europeus de segurança, interoperabilidade e conformidade técnica.
Em declarações à SIC, Paulo Tavares, Diretor do Empreendimento da Infraestruturas de Portugal, explicou que «inicia-se agora uma fase complexa e longa, relacionada com os ensaios, as vistorias e, principalmente, com a certificação de todos os componentes ferroviários», sublinhando que se trata de confirmar que toda a infraestrutura nova «cumpre o normativo de verificação, de conformidade e de interoperabilidade, mas também de segurança e de exploração comercial».
Infraestrutura sujeita a normas europeias rigorosas
O responsável explica que todos os elementos da nova linha estão sujeitos a validação técnica, desde a via férrea à energia, passando pelos túneis, viadutos e sistemas de sinalização. «O gabarito dinâmico ferroviário tem de cumprir a legislação de interoperabilidade», refere, acrescentando que também o sistema de sinalização e deteção de comboios, designado por CCS, está incluído neste processo, garantindo que «toda a infraestrutura construída cumpre os desígnios do normativo».
Com cerca de 90 quilómetros de extensão, esta é a única linha ferroviária construída de raiz no âmbito do Corredor Internacional Sul e visa reforçar a ligação entre os portos portugueses, Lisboa e a fronteira com Espanha.
Atrasos explicados pela complexidade da obra
Ao longo da última década, a empreitada registou vários atrasos, motivados por fatores técnicos e imprevistos. Paulo Tavares reconhece, na reportagem da SIC, que «a obra prolongou-se no tempo porque surgiram imprevistos», lembrando que, mesmo sem ocorrências excecionais, já se tratava de uma intervenção de grande complexidade.
Nos 90 quilómetros da nova linha foram construídas 32 pontes e viadutos ferroviários, 11 dos quais com mais de 500 metros, totalizando mais de 11 quilómetros de pontes, além de 56 desnivelamentos rodoviários. «Por si só, já é uma obra complexa», afirma.
Incidentes geotécnicos e achados arqueológicos
Entre os principais fatores de atraso esteve um incidente geotécnico com potencial gravidade, ocorrido em dois taludes de escavação com cerca de 42 metros de altura. O responsável da Infraestruturas de Portugal explica que foi detetada «uma movimentação muito significativa», o que obrigou à paragem dos trabalhos, à elaboração de um novo projeto de contenção e resultou num atraso aproximado de dez meses.
A empreitada foi ainda condicionada por descobertas arqueológicas na zona do Seixas, onde foram identificados vestígios de uma antiga ocupação romana, incluindo ossadas humanas. Esta situação levou a um atraso adicional de cerca de oito meses.
Investimento estratégico para o transporte ferroviário
A obra, inicialmente adjudicada por 339 milhões de euros, deverá ultrapassar os 400 milhões de euros, refletindo os impactos dos atrasos e dos trabalhos adicionais. Ainda assim, a Infraestruturas de Portugal considera a ligação Évora–Caia um investimento estruturante para o sistema ferroviário nacional.
Concluída a fase de testes e certificação, a nova linha permitirá uma ligação ferroviária mais rápida e eficiente entre Portugal e Espanha, reforçando o transporte de mercadorias e passageiros no Corredor Internacional Sul, conforme destacado na reportagem da SIC.


















