Ao longo das margens do Alqueva, no concelho de Alandroal, decorre mais uma edição do Festival do Peixe do Rio. O evento, que promove a gastronomia e o património natural da região, coloca em evidência um produto que, apesar das suas qualidades, continua a ser menosprezado face ao peixe do mar. Para o Chef José Júlio Vintém, o peixe do rio representa um tesouro por explorar.
«O peixe do rio é uma riqueza gigante que nós temos na região», afirma o chef alentejano. «Temos outras, como a caça, o porco alentejano e o nosso terroir. Mas além disso, agora também temos águas. Dantes o Alentejo só tinha mar, mas agora, com as barragens, ganhámos um mar interior.»
A presença de novas massas de água no território alentejano tem sido um fator determinante para a revalorização do peixe do rio. O Festival do Peixe do Rio, que decorre anualmente, reflete essa transformação, dando espaço a um programa que cruza tradição e inovação. Durante os dez dias do evento, os visitantes podem provar pratos típicos como caldeiradas e peixe frito, preparados por restaurantes locais, mas também assistir a showcookings e degustações que propõem novas formas de confeção.
Apesar das suas qualidades, o peixe do rio tem enfrentado um desafio de perceção entre consumidores e profissionais da restauração. Durante décadas, foi associado a uma opção inferior ao peixe do mar, um conceito que o chef José Júlio Vintém rejeita.
«O peixe do rio é mesmo muito bom, mas não pode ser abandonado nas arcas frigoríficas durante meses. Se no peixe do mar damos tanta importância à frescura, porque é que o peixe do rio há de ser diferente?», questiona.
A melhoria das redes de fornecimento de pescado tem permitido assegurar peixe do rio fresco com maior regularidade. «Com os pescadores que temos na região – cerca de 30 –, já é possível garantir peixe fresco semanalmente», destaca Vintém. Esta mudança tem contribuído para uma maior valorização do produto, que começa a surgir em contextos gastronómicos distintos.
Nos últimos anos, o peixe do rio tem vindo a conquistar espaço na alta cozinha e em propostas gastronómicas inovadoras. «Já conseguimos comer peixe do rio em casas de sushi e em restaurantes de cozinha japonesa», refere o chef. «A enguia, por exemplo, é um dos ingredientes mais valorizados na cozinha nipónica, utilizada no tradicional niguiri de enguia.»
A crescente procura por produtos endógenos e sustentáveis tem impulsionado este reconhecimento. O festival contribui para este processo ao reunir cozinheiros de renome, como António Loureiro e Carlos Teixeira, que trazem novas perspetivas sobre a forma de trabalhar este peixe. O próprio chef José Júlio Vintém, no showcooking de encerramento do evento, irá apresentar uma receita inspirada na gastronomia raiana, explorando a ligação entre Portugal e Espanha.
A realização do festival nesta altura do ano não é um acaso. De acordo com o chef, o peixe do rio encontra-se agora na sua melhor fase. «Estamos na pré-defeso, quando o peixe começa a armazenar gordura para recuperar do inverno e se preparar para a reprodução. Isso dá-lhe um sabor e uma textura únicos», explica.
Entre os pratos mais apreciados pelos visitantes, destaca-se a caldeirada de peixe do rio com ovas, uma das especialidades do evento. «Infelizmente, para os peixes, significa matar a sua descendência, mas para nós, é uma iguaria extraordinária», refere Vintém. «Uma caldeirada feita com peixe fresco e ovas torna-se uma refeição inesquecível.»
O Festival do Peixe do Rio não se limita à vertente gastronómica. Ao longo dos dez dias de evento, o programa inclui concursos de pesca, provas de vinhos, apresentações de livros e debates sobre a sustentabilidade dos recursos piscatórios. A animação cultural tem um forte foco nas tradições locais, com espetáculos de fado e cante alentejano.
Uma das novidades deste ano é a criação de uma aplicação móvel, que permitirá aos visitantes consultar o programa e localizar os restaurantes aderentes. Além disso, o evento marca o início de uma parceria estratégica entre Alandroal e Mértola, dois municípios unidos pelo rio Guadiana e pela tradição do peixe do rio.
Para José Júlio Vintém, o festival desempenha um papel fundamental na valorização de um produto que foi, durante muito tempo, esquecido. «Antigamente, para nós, o peixe do rio era o mais comum. Chegávamos a olhar para o peixe do mar e dizer: afinal, também é bom!», recorda. Hoje, essa perceção começa a mudar. No Alentejo, o peixe do rio já não é apenas um elemento da tradição – é um produto com potencial para ganhar lugar de destaque na gastronomia contemporânea.


















