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Investigação deteta vestígios de populações de saramugo “recém-desaparecidas”

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Uma investigação do Centro de Ciências do Mar e do Ambiente (MARE) detetou vestígios de cinco populações do peixe saramugo classificadas como “recém-desaparecidas”, anunciou hoje a instituição.

Num comunicado o MARE regozija-se com o facto de haver cinco populações de saramugo viáveis em Portugal e por uma nova técnica com recurso a análise de ADN ter detetado vestígios de outras cinco.

O saramugo (Anaecypris hispanica) é um pequeno peixe endémico das bacias dos rios Guadiana e Guadalquivir, classificado como “em perigo de extinção” em Portugal.

Explica o MARE que na última avaliação do risco de extinção, em 2023, o peixe perdeu metade das suas populações, passando de dez em 2005 para apenas cinco. E acrescenta que ainda há vestígios das cinco populações classificadas como “recém-desaparecidas”.

Para chegar às conclusões agora divulgadas foi feito um estudo com uma técnica molecular suportada em ADN ambiental (vestígios de ADN na água resultantes de escamas, muco ou excreções), que mostra que as cinco populações de saramugo “recém-desaparecidas” afinal “persistem ainda nestes locais do Guadiana”.

Carlos Carrapato, técnico superior do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), explica, citado no comunicado, que nas monitorizações feitas regularmente, desde o início do século, nunca foram capturados exemplares de saramugo, “o que apontava para a sua extinção local”.

Segundo Ana Veríssimo, do CIBIO/INBIO (Universidade do Porto), coordenadora do estudo, o trabalho permitiu detetar com grande precisão ADN de saramugo em amostras de água.

“Isto significa que a espécie ainda está lá e que devemos monitorizar todas as dez populações existentes em Portugal. A monitorização deve ser feita com esta nova técnica, mas também com pesca científica, usada há várias décadas, pois só assim podemos determinar a evolução das populações no futuro”, disse.

Filipe Ribeiro, investigador do MARE da Universidade de Lisboa, que planeou e coordenou o trabalho, alertou que o saramugo continua a desaparecer e que é urgente “um plano de recuperação efetivo para a espécie”.

Atualmente, o Parque Natural do Vale do Guadiana mantém cinco populações de salvaguarda ex-situ (fora do local de origem), provenientes das populações selvagens mais estáveis.

Apesar de a área de ocorrência da espécie não ter mudado muito desde 2005 as cinco populações agora detetadas “são muito frágeis” e não devem ser viáveis a médio prazo se não forem reforçadas e os seus habitats recuperados, avisa Filomena Magalhães, coordenadora do Livro Vermelho dos peixes de água doce e migradores e professora da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.

O saramugo vive no máximo três anos e alimenta-se de pequenos insetos aquáticos e zooplâncton. Em Portugal, as populações mais estáveis ocorrem nas ribeiras de Odeleite, Foupana e Vascão, localizadas no Algarve, e nos afluentes da margem esquerda do Guadiana, rios Ardila e Chança.

O estudo foi desenvolvido entre 2021 e 2022 e resultou de uma parceria entre o ICNF, o MARE – Centro de Ciências do Mar e do Ambiente na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (FCUL), o CIBIO/BIOPOLIS – Universidade do Porto, o CE3C – Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais da FCUL, e o MUHNAC – Museu Nacional de História Natural e da Ciência. Foi financiado pelo Programa Operacional Sustentabilidade e Eficiência no Uso de Recursos (POSEUR) – Plano de Ação do Saramugo.

O MARE é um centro de investigação científica, desenvolvimento tecnológico e inovação com competências para o estudo de todos os ecossistemas aquáticos, na vertente continental e no mar.

Foi criado em 2015 e integra oito Unidades Regionais de Investigação associadas às seguintes instituições: Universidade de Coimbra (MARE-UCoimbra), Politécnico de Leiria (MARE-Politécnico de Leiria), Universidade de Lisboa (MARE-ULisboa), Universidade Nova de Lisboa (MARE-NOVA), ISPA – Instituto Universitário (MARE-ISPA), Instituto Politécnico de Setúbal (MARE-IPSetúbal), Universidade de Évora (MARE-UÉvora), Universidade da Madeira e ARDITI (MARE-Madeira).

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