A falta de habitação no Alentejo e no restante país está a atribuir aos arquitetos uma responsabilidade acrescida na procura de respostas para as necessidades das populações. A posição foi defendida por Cláudia Gaspar, presidente da Secção Regional do Alentejo da Ordem dos Arquitectos, em declarações ao Jornal ODigital.pt, durante as comemorações do Dia Regional do Arquiteto, realizadas esta quinta-feira, em Évora.
A responsável considera que o trabalho dos arquitetos não se limita à conceção e acompanhamento das construções, assumindo também uma dimensão social num contexto marcado pela dificuldade de acesso à habitação.
Arquitetos chamados a responder à crise habitacional
Cláudia Gaspar reconheceu que a profissão atravessa uma fase de maior exigência, devido aos problemas habitacionais, às alterações climáticas e à evolução tecnológica.
“Com a ausência e a falta de habitação que existe na região, mas também no país, temos uma tarefa acrescida no que respeita à sociedade, porque não é apenas uma construção, é um papel social que o arquiteto tem”, afirmou a presidente da estrutura regional.
Segundo a arquiteta, os profissionais são obrigados a um exercício permanente de análise das necessidades do território e das comunidades, para conseguirem apresentar respostas adequadas.
“É uma profissão que nos obriga a um exercício contínuo e diário de auscultar, conhecer, perceber e entender para poder dar melhores respostas”, explicou, acrescentando que os desafios são atualmente maiores devido às novas tecnologias e às alterações climáticas.
Dispersão territorial condiciona trabalho no Alentejo
Entre os principais problemas sentidos pelos arquitetos no Alentejo está a extensão e dispersão do território, que contribuem para um trabalho mais isolado entre profissionais.
A Secção Regional do Alentejo representa cerca de 600 arquitetos, distribuídos por gabinetes privados, municípios e outros organismos públicos.
Cláudia Gaspar considera que “a dispersão do território e a individualidade com que cada um está habituado a trabalhar” constituem uma das principais preocupações da estrutura regional.
A responsável sustenta que a atividade desenvolvida pela Ordem dos Arquitectos nos últimos anos tem permitido criar momentos de contacto, formação e partilha de informação entre profissionais, através de iniciativas de âmbito técnico, cultural e jurídico.
O objetivo passa por reduzir o isolamento associado à profissão, que Cláudia Gaspar descreveu como “por vezes solitária e desgastante”, sobretudo numa região onde os profissionais se encontram afastados geograficamente.
Simplificação administrativa continua por concretizar
A presidente da Secção Regional do Alentejo abordou também as diferenças existentes nos procedimentos de submissão de projetos entre os municípios.
Cláudia Gaspar espera que a regulamentação associada ao Simplex possa uniformizar processos administrativos, embora reconheça que as alterações não serão suficientes para resolver os problemas habitacionais.
“Dentro dos 308 municípios que existem no país, são quase todos diferentes de câmara para câmara”, observou, defendendo que a simplificação poderá eliminar obstáculos na entrega e tramitação dos projetos.
A arquiteta esclareceu, contudo, que a eventual simplificação incidirá sobretudo nos procedimentos administrativos. “O trabalho é cada vez mais exigente. O que se simplifica é o procedimento administrativo de submissão do projeto”, afirmou.
Segundo a responsável, ainda existem municípios que solicitam documentação em papel, apesar da digitalização dos processos.
Dia Regional homenageou percursos profissionais
As comemorações do Dia Regional do Arquiteto decorreram na sede da Secção Regional do Alentejo, na Torre do Salvador, em Évora, e incluíram uma homenagem aos profissionais que completaram 25 e 50 anos de inscrição na Ordem dos Arquitectos.
Cláudia Gaspar explicou que a iniciativa pretende valorizar os arquitetos e a arquitetura produzida na região. Esta foi a primeira edição da celebração regional, que deverá passar a realizar-se anualmente.
Entre os homenageados estiveram quatro arquitetos com mais de 50 anos enquanto membros da Ordem. Para Cláudia Gaspar, estes profissionais são “verdadeiros representantes da arquitetura e da profissão”, devido ao percurso desenvolvido ao longo de várias décadas.
Revista reúne arquitetura e território do Alentejo
A sessão ficou ainda marcada pelo lançamento do segundo número da revista Intersecções – Alentejo, uma publicação da Secção Regional do Alentejo da Ordem dos Arquitectos.
A revista inclui artigos, trabalhos fotográficos e roteiros dedicados à arquitetura regional, funcionando como uma plataforma de divulgação e partilha entre profissionais.
“Tem roteiros que são autênticos guias de arquitetura pelo nosso Alentejo”, explicou Cláudia Gaspar, indicando que a publicação está disponível em formato impresso e digital.
Os dois números da revista podem ser consultados na sede da Secção Regional do Alentejo, nas restantes estruturas regionais da Ordem dos Arquitectos e através da plataforma digital da instituição.


































