A fábrica de grafeno que a Plasmaphene prevê instalar no Parque Industrial de Vila Viçosa, num investimento de cerca de 7,5 milhões de euros, deverá industrializar tecnologia desenvolvida no Instituto Superior Técnico.
A mesma plataforma tecnológica está a ser utilizada na criação de materiais à base de grafeno destinados a absorver radiação eletromagnética e a reduzir a assinatura radar de drones e aeronaves.
A informação conhecida entretanto permite estabelecer a ligação entre o projeto industrial previsto para Vila Viçosa e a GTechPlasma, uma spin-off do Instituto de Plasmas e Fusão Nuclear (IPFN) do Instituto Superior Técnico dedicada à produção de grafeno e de materiais derivados.
O ODigital.pt noticiou em junho que a unidade da Plasmaphene representava um investimento de aproximadamente 7,5 milhões de euros e previa criar, numa fase inicial, 15 postos de trabalho qualificados.
Na altura, em declarações ao jornal ODigital.pt, o presidente da Câmara Municipal de Vila Viçosa, Inácio Esperança, afirmou que o projeto e o financiamento já tinham sido aprovados e apontou para o início da produção em 2027. A informação então disponível não detalhava a origem da tecnologia que deverá ser utilizada na fábrica.
Tecnologia do Técnico foi licenciada à Plasmaphene
Bruno Soares Gonçalves, cofundador da GTechPlasma e presidente do IPFN, revelou ao Jornal Económico, numa informação posteriormente reproduzida pela AICEP, que a tecnologia já foi licenciada à Plasmaphene.
Segundo o investigador, a empresa de Vila Viçosa deverá utilizar o processo para produzir grafeno e N-grafeno, uma variante dopada com azoto. A GTechPlasma continuará, por sua vez, “focada nos produtos ‘dual use’ e de valor acrescentado”, com aplicações civis e na defesa.
A propriedade intelectual pertence ao Instituto Superior Técnico, que concedeu uma licença exclusiva à GTechPlasma. A tecnologia assenta num equipamento de plasma que permite produzir grafeno e variantes dopadas num único processo, alterando a composição em função da aplicação pretendida.
De acordo com Bruno Soares Gonçalves, o processo encontra-se protegido por oito patentes concedidas na Europa, no Japão e nos Estados Unidos, estando outra patente pendente nos Estados Unidos.
Material procura reduzir assinatura radar
Uma das aplicações desenvolvidas pela GTechPlasma consiste num material à base de N-grafeno e de óxidos metálicos destinado a absorver radiação eletromagnética. A empresa está a estudar a sua integração em revestimentos e tintas aplicáveis em drones, aeronaves e outros equipamentos que necessitem de reduzir a assinatura radar.
Em declarações à Euronews, Bruno Soares Gonçalves indicou que, segundo estimativas da equipa, a aplicação do material num F-16 poderia reduzir a assinatura radar da aeronave para um nível comparável ao de um pássaro.
A comparação apresentada pelo investigador corresponde a uma estimativa. A informação divulgada não identifica ensaios realizados num F-16 nem uma certificação operacional do material. A redução da assinatura radar também não significa que uma aeronave ou um drone se tornem totalmente invisíveis aos sistemas de deteção.
A GTechPlasma afirma já ter fornecido 260 gramas deste material a um fabricante português de drones, cuja identidade não foi divulgada. O objetivo da empresa passa agora por desenvolver soluções que possam ser aplicadas diretamente pelos fabricantes, em vez de fornecer apenas o material em pó.
Produção deverá ser ampliada em Vila Viçosa
Os equipamentos utilizados pela GTechPlasma produzem atualmente 40 miligramas de grafeno por minuto, segundo os dados avançados pela empresa. A industrialização prevista para Vila Viçosa deverá assentar na instalação de vários dispositivos, permitindo aumentar a produção e fabricar materiais diferentes em simultâneo.
Bruno Soares Gonçalves explicou que o objetivo para a fábrica passa por dispor de “múltiplos dispositivos”, tanto para assegurar redundância como para produzir diferentes materiais através da alteração das configurações dos equipamentos.
No seu site institucional, a Plasmaphene apresenta-se como uma empresa sediada em Vila Viçosa dedicada à industrialização de grafeno e de materiais bidimensionais. Entre as áreas identificadas encontram-se os revestimentos e tintas, polímeros, borrachas, metais e engenharia de superfícies.
A informação publicada até ao momento não revela o número de equipamentos que serão instalados, a capacidade anual prevista nem a fase atual das obras no Parque Industrial de Vila Viçosa.
Investimento mantém-se nos 7,5 milhões de euros
O investimento de 7,5 milhões de euros avançado em junho pelo presidente da Câmara de Vila Viçosa foi entretanto reiterado nas informações divulgadas sobre o licenciamento da tecnologia à Plasmaphene.
Mantém-se igualmente a previsão inicial de criação de 15 postos de trabalho qualificados, não tendo sido divulgados novos dados sobre o emprego ou sobre o calendário de entrada em funcionamento da unidade.
Os valores conhecidos relativos a projetos financiados pela União Europeia, pela NATO e pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia dizem respeito ao desenvolvimento científico e tecnológico que antecedeu a industrialização. Essas verbas são distintas do investimento anunciado para a fábrica de Vila Viçosa.
Os novos elementos permitem enquadrar o projeto como uma operação de transferência e industrialização de tecnologia desenvolvida no Instituto Superior Técnico. As informações disponíveis não estabelecem, contudo, que a fábrica de Vila Viçosa se destinará exclusivamente ao setor da defesa ou que o material para redução da assinatura radar já se encontra em utilização operacional.













