Entre 23 e 26 de outubro, Évora será palco do primeiro ciclo do projeto «Lá nas Árvores», intitulado «Sentir a Terra». A iniciativa, integrada na programação artística da Capital Europeia da Cultura Évora_27, propõe uma escuta alargada da relação entre música, território e paisagem sonora, com especial ligação ao Alentejo.
Em entrevista ao Jornal ODigital.pt, a diretora artística do projeto, Ana Telles, sublinha que esta primeira edição marca o início de um percurso que se estende até 2027. «Estamos muito habituados a usufruir de cultura e de arte nos espaços urbanos. O que este projeto pretende é criar espaços alternativos de fruição cultural», explica.
Cultura fora do perímetro urbano
O objetivo, segundo Ana Telles, é «tirar o foco apenas dos equipamentos culturais situados nas cidades» e levar a experiência artística para «espaços naturais ou não convencionais». A diretora artística considera que este movimento simbólico traduz o espírito de Évora_27: «Estamos a começar um périplo que precisa de tempo e reiterações. Daí fazermos três ciclos — 2025, 2026 e 2027 — que culminarão num festival musical em plena natureza».
Nesta primeira edição, o Jardim Público de Évora e o seu coreto ganham papel de destaque. «Estamos num espaço natural dentro do perímetro urbano, que no passado tinha uma função cultural. Vamos recuperar alguma dessa funcionalidade e devolver-lhe o som e a arte», referiu.
Quatro concertos e uma escuta da terra
A programação de «Sentir a Terra» inclui quatro concertos, um workshop e uma instalação sonora. O ciclo inicia-se com o projeto «O Canto das Sementes», dedicado à criação musical contemporânea e à ecologia acústica.
«O primeiro concerto apresenta obras de jovens compositores que trabalharam durante um ano sob a orientação da compositora Sara Carvalho, explorando temas como a paisagem sonora e a biodiversidade», explica Ana Telles. O segundo concerto, por sua vez, reúne nomes consagrados como Jaime Reis, Miguel Azguime e a própria Sara Carvalho.
Um dos momentos centrais será o concerto-conferência «Paisagem Sonora Natural e Património Imaterial do Alentejo», que junta Ana Telles e o compositor Carlos Marecos. «A obra chama-se “A Casa do Cravo” e inspira-se numa casa real em Santiago do Escoural, onde foi pintado um cravo vermelho a 25 de abril de 1974. A peça integra sons da natureza, gravações históricas e canções de intervenção, evocando a memória coletiva do país», descreve.
Sons do Alentejo e criação partilhada
A componente participativa surge reforçada no workshop de Jaime Reis, a realizar-se no Palácio D. Manuel. «Qualquer pessoa, mesmo sem formação prévia, poderá experimentar manipular eletronicamente sons da paisagem. É uma forma de envolver o público e desmistificar a criação musical contemporânea», salienta Ana Telles.
O ciclo encerra com um concerto de música acusmática, com obras baseadas em sons de parques e espaços naturais, e uma instalação sonora no coreto do Jardim Público, que estará aberta ao público nas tardes de 25 e 26 de outubro.
Música, ecologia e comunidade
Ana Telles considera que «Sentir a Terra» é mais do que um programa cultural — é um exercício de consciência ecológica e de ligação entre arte e vida. «Queremos mostrar que a criação musical contemporânea não é uma coisa elitista, mas algo que pode estar no centro das preocupações e do quotidiano das pessoas», afirmou.
A diretora artística acredita que o projeto «se encaixa na perfeição» na visão global da Capital Europeia da Cultura. «A cultura está atenta aos grandes desafios da humanidade e pode criar alternativas para os modos de vida que temos. Este é um processo de co-criação centrado na capacidade de ultrapassar os desafios contemporâneos», concluiu.
O ciclo «Sentir a Terra» marca, assim, o ponto de partida de um percurso que continuará com «Levantar Voo», em 2026, e «Coexistir, Construindo Futuro», em 2027 — etapas de uma viagem que pretende unir arte, natureza e comunidade, tendo Évora como centro criativo e simbólico.



















