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Évora: O CENDREV «é um exemplo de como a arte pode transformar comunidades» (c/fotos)

Este domingo, 12 de janeiro, o Centro Dramático de Évora (CENDREV) celebrou os seus 50 anos com uma cerimónia evocativa que reuniu a comunidade e destacou o impacto cultural e social deste projeto pioneiro.

Fundado em janeiro de 1975, num Portugal ainda em transformação após o 25 de Abril, o CENDREV tornou-se um símbolo da liberdade conquistada e do esforço de descentralização cultural. A celebração, que decorreu no Teatro Garcia de Resende, espaço histórico restaurado pela instituição, foi marcada por um passeio público, um ambiente de confraternização e um concerto de Júlio Resende.

José Russo, diretor artístico do CENDREV, refletiu sobre o percurso desta casa, considerada uma referência no teatro nacional. «Não é apenas mais um dia, mas sim o marco de 50 anos de trabalho regular, sistemático, em diversas áreas. Desde a criação teatral, a programação dos Bonecos de Santo Aleixo, as bienais de marionetas, o trabalho com Gil Vicente, até à colaboração com jovens autores portugueses e grandes nomes da dramaturgia universal», afirmou.

Um legado cultural com raízes na liberdade

Para José Russo, a ligação entre o CENDREV e a Revolução dos Cravos é indissociável. «Este projeto nasceu logo após o 25 de Abril, num contexto em que a liberdade permitiu iniciar um trabalho de descentralização cultural no país. Foi um dos primeiros projetos desta natureza e inspirou muitas outras iniciativas em diferentes pontos de Portugal», destacou. «O CENDREV só existe porque existiu o 25 de Abril. Liberdade e democracia são as palavras-chave para a existência desta casa e deste projeto.»

O diretor recordou ainda como o Teatro Garcia de Resende, que já esteve em avançado estado de degradação, foi recuperado e transformado num polo cultural. «Sem o 25 de Abril, este teatro poderia estar hoje abandonado e a apodrecer. Mas, felizmente, está completamente restaurado e é um orgulho abrir as suas portas diariamente para acolher públicos e artistas», afirmou.

Construir públicos, formar artistas

Ao longo de meio século, o CENDREV não se limitou à criação e apresentação de espetáculos. José Russo enfatizou a importância da formação de novos públicos e da promoção de jovens talentos. «Esta casa tem sido um ponto de partida para muitas pessoas. Muitos descobriram aqui a paixão pelo teatro e pelas artes em geral», disse. Contudo, alertou para os desafios enfrentados pelo setor cultural no país: «Um dos grandes problemas em Portugal é garantir a continuidade. A cultura precisa de trabalho regular e de uma relação próxima com as pessoas. É assim que se cria o gosto e se facilita o acesso das comunidades aos objetos artísticos.»

O impacto do CENDREV é visível nos números de espetáculos apresentados e nos milhares de espetadores que já visitaram o Teatro Garcia de Resende. «Há sempre alguém que nunca entrou neste teatro, mas a cada espetáculo vemos novas caras. Hoje, por exemplo, a sala estará completamente cheia. Isso é motivo de celebração, mas também de responsabilidade para continuarmos este trabalho», sublinhou.

Uma celebração de arte e comunidade

A cerimónia dos 50 anos foi pensada como uma celebração simples, mas significativa. «Gostamos mais de trabalhar do que de celebrar, mas nestas datas redondas é importante parar, refletir e festejar», confessou José Russo. A tarde começou com um passeio público em frente ao teatro, onde os membros da companhia vestiram trajes de personagens que marcaram a história das produções do CENDREV. «Foi uma forma de acolher o público e criar um momento de proximidade», explicou.

O ponto alto do evento foi o concerto Fado Jazz – Filhos da Revolução, de Júlio Resende, que ligou as celebrações do 50.º aniversário do CENDREV aos 50 anos do 25 de Abril. «Este concerto é simbólico. Ele reflete o que somos: uma casa de liberdade, de democracia e de criação», disse Russo. O espetáculo, que uniu o fado às sonoridades do jazz, arrancou aplausos entusiásticos de uma sala cheia.

50 anos de história, um futuro a construir

Enquanto o público partilhava um bolo comemorativo e brindava com champanhe, José Russo não escondeu o orgulho pelo que o CENDREV alcançou, mas destacou também a importância de olhar para o futuro. «Quando olho à minha volta e vejo rostos tão mais jovens do que o meu, sinto esperança. Espero que esta casa continue a ser um ponto de encontro entre gerações, um espaço de criação e de transformação cultural», afirmou.

Para Russo, o CENDREV é mais do que um projeto cultural: «É um exemplo de como a arte pode transformar comunidades. Celebramos hoje o que fizemos ao longo destes 50 anos, mas também reafirmamos o nosso compromisso de continuar. Porque o teatro, tal como a liberdade, precisa de ser cultivado todos os dias.»

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