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Évora 2027: entre o sonho europeu e a realidade que teimamos em ignorar

Quando a notícia chegou, em 2023, confesso que senti um orgulho imenso. Évora ia ser Capital Europeia da Cultura em 2027.

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Quando a notícia chegou, em 2023, confesso que senti um orgulho imenso. Évora ia ser Capital Europeia da Cultura em 2027. Finalmente, pensei, a minha terra natal ia ter os holofotes que merece. Finalmente, os investimentos há muito adiados, as obras necessárias, a reabilitação há muito prometida. Finalmente, pensei, a Europa ia obrigar-nos a cuidar de nós próprios.

Passados três anos, em cada regresso a casa para visitar os meus pais e a pergunta instala-se: afinal, o que fizemos com este tempo?

Não quero ser injusto. Sei que há trabalho a ser feito nos bastidores, sei que a programação cultural se desenha, sei que há vontade política e técnica para que 2027 seja um marco na história da cidade. Mas, como economista, não posso deixar de olhar para aquilo que está à vista de todos e pensar que, neste momento, o ativo mais valioso de Évora, a sua imagem, a sua qualidade de vida, o seu espaço público, está claramente desvalorizado.

As ruas da cidade são o retrato mais visível dessa desvalorização. Percorro a Avenida Túlio Espanca, a Avenida Almirante Gago Coutinho, e encontro um cenário que se repete por todo o país, é certo, mas que em Évora ganha contornos mais preocupantes. Buracos no asfalto, passeios degradados, falta de manutenção evidente. Os meus pais, que já não têm a mesma mobilidade de outros tempos, sentem cada passeio como um pequeno obstáculo. E penso comigo: é esta a cidade que vamos mostrar à Europa daqui a um ano?

Depois há o problema das casas devolutas. O centro histórico de Évora é património mundial, mas caminhar por algumas das suas ruas é também caminhar por um museu do abandono. Prédios inteiros com portas e janelas tapadas, à espera de não se sabe bem quê. Numa altura em que a habitação é um dos maiores problemas do país, ter um parque edificado tão degradado no coração da cidade é, no mínimo, um contrassenso. É mau para quem procura casa, é mau para o comércio local, é mau para a imagem que projetamos para fora.

Compreendo que os processos de reabilitação urbana são complexos. Sei que há proprietários absentistas, que há questões legais arrastadas, que os recursos são limitados. Mas também sei que uma Capital Europeia da Cultura não acontece todos os dias. É a oportunidade de uma geração. E a oportunidade está a ser aproveitada a meio gás.

Não defendo obras frenéticas de última hora, daquelas que se fazem a correr para a fotografia e que três meses depois já estão outra vez degradadas. Defendo, isso sim, uma visão estratégica. Defendo que olhemos para 2027 não como uma meta, mas como um ponto de partida. Defendo que os investimentos feitos agora tenham como objetivo deixar um legado para os eborenses que cá ficam depois de os holofotes se apagarem.

Os meus pais, que ali vivem há décadas, que ali construíram a sua vida e criaram os seus filhos, merecem isso. Merecem uma cidade onde seja bom viver todos os dias, e não apenas nos dias de festa. Merecem ruas dignas, espaços públicos cuidados, uma cidade que cuide de quem sempre cuidou dela.

Falta um ano. Ainda vamos a tempo de corrigir o que está mal, de acelerar o que está parado, de mostrar que Évora não é só património histórico, mas também uma cidade viva, habitada, orgulhosa de si própria. Mas para isso é preciso que o diagnóstico seja claro: Évora não está como devia estar. E, mais importante, é preciso que a vontade de mudar seja tanta quanto a vontade de celebrar.

Por: João Santos, Economista e professor de Economia .

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