O espólio da Igreja de Nossa Senhora das Salas, em Sines, alvo de obras de restauro, está a ser reinstalado no imóvel, depois de ter integrado uma exposição temporária no Panteão Nacional, em Lisboa.
O conjunto com 81 peças regressa agora a Sines, no distrito de Setúbal, numa fase em que a igreja se prepara para reabrir ao público, após obras de restauro e de conservação.
Devido à empreitada, “foi necessário tirar o tesouro que estava na sacristia, que são mais de 80 peças”, explicou Ricardo Pereira, arquiteto da Câmara de Sines, em declarações à agência Lusa, durante uma visita à igreja.
As peças foram expostas no Panteão Nacional, em 2025, para assinalar os 500 anos da morte de Vasco da Gama, numa iniciativa que permitiu divulgar fora de Sines “um dos mais importantes” tesouros sacros do Alentejo, assegurou.
“Muito do que temos aqui são obras de arte de grande qualidade produzidas na corte” portuguesa, acrescentou.
Segundo o responsável, a saída temporária do espólio serviu para garantir condições de segurança e conservação de algumas peças durante a obra.
Para a arquiteta Rita Vale, do Património Cultural – Instituto Público (IP), a solução encontrada permitiu proteger o espólio e valorizá-lo junto de novos públicos.
Desta forma, realçou à Lusa, a exposição “ficou mais guardada à vista de todos”.
Agora, o regresso das peças a um espaço com cerca de 40 metros quadrados da Igreja de Nossa Senhora das Salas exigiu cuidados técnicos de conservação. Desde o transporte, a cargo de uma empresa especializada em obras de arte, até à sua colocação nas vitrinas.
“As peças têm de chegar, têm de ficar algum tempo a aclimatar-se e, depois, tem de se verificar o seu estado de conservação”, explicou Ricardo Pereira.
Entre os elementos destacados pelo arquiteto estão “as joias de Nossa Senhora das Salas”, um vestido “todo bordado a ouro”, esculturas, peças em marfim, pedras semipreciosas vindas do Brasil e objetos ligados à Índia e ao mundo atlântico.
“Temos aqui um vestido absolutamente extraordinário”, afirmou o responsável, apontando para uma das 10 vitrinas onde, daqui a umas semanas, estará exposta uma peça bordada a ouro associada à imagem de Nossa Senhora das Salas.
O arquiteto sublinhou que o espólio resulta de um movimento de devoção e “doações anónimas” que “atravessa 500 anos”, com raízes na própria família de Vasco da Gama.
“A mãe de Vasco da Gama é a primeira pessoa que temos documentada que ofereceu um vestido à Senhora das Salas”, destacou.
O objetivo da reinstalação, disse, não é transformar a igreja num “museu separado da vida real”, mas devolver o património ao seu lugar natural, com melhores condições de conservação e comunicação.
“Quisemos fazer o contrário, que foi trazer as técnicas que o museu tem de comunicação e de conservação para o espaço da própria igreja”, explicou.
Para o regresso do espólio à sua casa foi necessário instalar na sacristia novas vitrinas e sistemas de monitorização da temperatura e da humidade, para reforçar a conservação das peças.
O arquiteto defendeu que, após a reabertura ao público, em julho, o espólio vai poder ser usufruído por habitantes e visitantes, num templo que “continua vivo [e] onde continua a ocorrer a festa e a missa diária”.
Além do restauro do templo e da conservação do tesouro, o projeto financiado pelo Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), no valor global de 450 mil euros, prevê ainda o lançamento de uma monografia sobre a igreja e o 5.º centenário da morte de Vasco da Gama.
A Igreja de Nossa Senhora das Salas foi mandada construir pelo navegador Vasco da Gama na sua terra natal, no cumprimento de um voto de agradecimento pelo êxito da sua viagem marítima à Índia, em 1498.
A mostra conta igualmente com uma imagem de Nossa Senhora que “estava na igreja onde Vasco da Gama foi crismado, em 1480”, e uma imagem de São Bartolomeu, de cerca de 1500, “da altura em que Vasco da Gama voltou da Índia e foi viver para Sines”.


















