A casa-ateliê onde João Cutileiro viveu e trabalhou durante décadas em Évora abriu portas ao público pela primeira vez, depois da doação do espólio do escultor ao Estado português. No interior, sem esculturas expostas e antes de qualquer reabilitação, o que se encontra são paredes com marcas, pregos e sinais deixados por centenas de obras. É neste cenário que nasce “A CASA – fotografia de Margarida Lagarto”, a exposição que inaugura a programação do Centro de Arte João Cutileiro, integrado no projeto Évora_27.
O Jornal ODigital.pt visitou o espaço e falou com Margarida Lagarto, companheira de João Cutileiro, que conduz a visita como quem abre um álbum de família. Entre compartimentos vazios, luzes que atravessam janelas e fotografias colocadas como cartazes, a também artista explica o sentido da mostra, fala da vida quotidiana do escultor e do que espera para o futuro deste legado em Évora.
Uma exposição feita para mostrar a casa como ficou
A exposição nasce de um registo prolongado no tempo. Margarida Lagarto viveu na casa durante 37 anos e foi fotografando, quase sem intenção de vir a apresentar o trabalho publicamente. As imagens surgiram como um arquivo diário, feito à medida que a vida se desenrolava entre esculturas, desenhos, objetos domésticos e a rotina do atelier.
«Ao longo dos 37 anos que vivi aqui, fui tirando fotografias. Não tinha intenção nenhuma de fazer qualquer exposição com elas. Eram um registo quase diário meu», conta.
Com a aproximação de Évora_27 e a criação do Centro de Arte João Cutileiro, surgiu a pergunta: como iniciar uma programação cultural num espaço que ainda não foi reabilitado e que, neste momento, não apresenta ao público as esculturas originais?
A resposta foi, paradoxalmente, mostrar o vazio. Um vazio que não é ausência, mas memória.
«Pensámos: vamos ver o que será o ideal para começar. Porque a casa ainda não foi reabilitada. Não está exatamente como nós a deixámos», explica, sublinhando que esta primeira atividade mantém as marcas do que lá esteve.

A casa como “tatuagem”: pregos, marcas e contornos das obras
Dentro das salas, o visitante encontra paredes com pregos, marcas e sinais que parecem desenhar a presença das esculturas. Para Margarida Lagarto, a casa tornou-se uma espécie de “tatuagem”, onde as marcas ganham significado.
«O facto de nós deixarmos os pregos… Os pregos indicam que estiveram ali coisas penduradas. E as marcas na parede das coisas que estiveram penduradas», descreve.
A exposição foi montada assumindo essa crueza. Não há molduras nem um acabamento pensado para “embelezar” as imagens. O propósito é aproximar o olhar do visitante à sensação de estar dentro de uma casa que ainda não se transformou em museu.
«A intenção era que não fosse a fotografia artística toda bem trabalhada (…) Era como se fosse um cartaz», explica, defendendo que as imagens podem coexistir com a reabilitação futura, como se fossem cartazes colados num muro.

«As pessoas estavam à espera de ver esculturas»
Ao longo da conversa, Margarida Lagarto recorda um episódio que, para si, revelou uma expectativa comum de quem entra na casa pela primeira vez.
Conta que um visitante, ao sair, lhe disse que não valia a pena entrar porque «não há nada lá dentro». A frase não foi um comentário à exposição, mas à ausência das esculturas.
«As pessoas não estão sensibilizadas para isso. (…) Estavam à espera de ver esculturas», admite.
Para a artista, essa reação também faz parte do processo. A casa ainda não é um museu formal e a abertura ao público acontece antes da intervenção de conservação. A exposição surge, por isso, como uma oportunidade de mostrar o lugar “antes de ser transformado”.
«Esta foi a oportunidade de trazer as pessoas até à casa antes dela ter essa obra», sublinha.
O privilégio de abrir a casa em Évora_27
A integração da exposição na Capital Europeia da Cultura é, para Margarida Lagarto, um marco para a cidade e para a região. No discurso, repete a ideia de privilégio, não como fórmula, mas como reconhecimento do impacto que Évora_27 pode representar.
«É talvez o acontecimento cultural (…) que vai dar uma grande importância à cidade e à região», afirma.
Sobre o facto de esta ser a primeira exposição na casa, ainda sem obras e sem reabilitação, assume que é uma forma de abrir caminho para o que pretende vir a ser o Centro de Arte João Cutileiro.
«Só posso dizer que é um grande privilégio e uma bolha de oxigénio para o nosso projeto», acrescenta.
A matéria-prima do Alentejo como eixo do trabalho de João Cutileiro
Entre fotografias do interior e imagens do exterior, há um tema que atravessa a conversa: o mármore. Para Margarida Lagarto, é impossível separar o percurso artístico de João Cutileiro da região onde viveu e trabalhou.
«O João trabalhava com a matéria-prima da região. Há toda esta ligação», diz, sublinhando que o mármore do Alentejo não é apenas material de construção, mas também uma matéria de criação artística.
A entrevistada recorda ainda que João Cutileiro foi pioneiro na forma como passou a trabalhar o mármore com recurso a maquinaria elétrica.
«Com as máquinas elétricas (…) foi pioneiro», explica, lembrando a transição das técnicas tradicionais para instrumentos que permitiam outra velocidade e liberdade no trabalho escultórico.

A casa como lugar de trabalho: guardar, criar, viver
O percurso pela casa revela também a forma como o espaço era ocupado: menos como habitação tradicional e mais como extensão do trabalho.
Margarida Lagarto conta que João Cutileiro produzia com rapidez e intensidade, e precisava de espaço para guardar as peças concluídas. A casa, com várias salas, tornou-se esse lugar.
«Tendo esta casa disponível, com este espaço todo, não poderia haver melhor sítio para guardar as peças», afirma.
Com o tempo, o interior foi ficando preenchido com esculturas, não em modo expositivo, mas pela lógica do espaço disponível.
«Onde houvesse meio centímetro, um metro, punha-se uma escultura na parede», recorda.
O atelier: a “indústria” de um escultor que queria ser independente
Se a casa guardava, o exterior produzia. O atelier de João Cutileiro foi concebido para responder às exigências do mármore: máquinas, gruas, empilhadores, áreas de manobra, e um sistema pensado para transportar e cortar pedra sem depender de terceiros.
«Isto não é muito normal um escultor ter esta indústria, estas máquinas industriais. Mas o João queria ser independente», explica Margarida Lagarto, detalhando que o artista procurava não depender de cortes feitos fora.
A ideia era ter ali todo o apoio logístico ao trabalho, faltando apenas o ato de extrair o mármore diretamente da pedreira.
«Só lhe faltava ter uma pedreira e extrair a pedra», resume.

Um quotidiano marcado pela disciplina e pela repetição
A conversa deixa também espaço para o lado íntimo do trabalho: a rotina diária de um escultor que vivia para produzir. Margarida Lagarto recorda um João Cutileiro madrugador, que desenhava cedo, trabalhava no exterior durante o dia e regressava ao interior ao fim da tarde.
«Acordava cedíssimo (…) desenhava até por volta das oito (…) depois ia lá para fora e começava a trabalhar freneticamente», descreve.
O quotidiano terminava com um ritual simples, ao final do dia, quando regressava do atelier.
«Vinha às oito, oito e meia para dentro, bebia o seu whisky, comia qualquer coisa», conta.
Fotografias como diário: luz, recantos e vida doméstica
Ao contrário do que muitos visitantes possam imaginar, as fotografias expostas não se limitam às esculturas. Há recantos da casa, sinais domésticos e detalhes de luz, como se o espaço fosse também um corpo em observação diária.
«Toda a casa, todos os recantos (…) isto é um diário», resume Margarida Lagarto.
A exposição reúne imagens de várias divisões, incluindo espaços que não são visitáveis no percurso atual, como a cozinha.
«Optámos por pôr fotografias (…) de compartimentos da casa que não estão visitáveis, que é o caso da cozinha», explica.

O peso da memória e o silêncio da casa
À medida que a visita avança, torna-se claro que o vazio tem um impacto emocional. Margarida Lagarto não o esconde. Para si, regressar ao espaço sem o recheio de esculturas é confrontar-se com um silêncio que pesa.
«Para mim é duro. É um silêncio muito duro», confessa.
Ainda assim, acredita que o próprio público pode ajudar a transformar esse silêncio em presença, deixando no espaço a sua passagem.
«São as pessoas que vão deixando um bocadinho do calor delas. (…) Isso é muito bonito», acrescenta.
A doença e os últimos anos: quando o atelier entrou para dentro de casa
Numa das salas, a exposição dá pistas sobre os últimos anos de João Cutileiro. A progressão da doença levou-o a reduzir o trabalho no exterior, criando um “mini ateliê” no interior, para tarefas mais leves e detalhadas.
«O João foi adoecendo (…) esta sala (…) já tem uma espécie de mini ateliê que o João fez aqui», explica, referindo que era um espaço de trabalho sentado, com ferramentas pequenas e tarefas mais delicadas.
O espólio: mais de 700 peças e centenas de desenhos por inventariar
A entrevista revela também a dimensão do acervo deixado pelo escultor. Margarida Lagarto aponta para um património amplo, ainda por inventariar totalmente, com peças originais, desenhos e arquivos fotográficos.
«São mais de 700 peças originais, são centenas de desenhos que não estão sequer inventariados», afirma.
Sublinha ainda que João Cutileiro também fotografava, existindo negativos e fotografias em papel.
«O João foi fotógrafo também (…) e os seus negativos e documentos», acrescenta.
O que pode vir a ser a Casa-Museu João Cutileiro
Ao longo do percurso, surge repetidamente uma ideia: a esperança de que este espaço venha a ser, de forma plena, uma casa-museu, com arquivo, consulta e programação artística.
Margarida Lagarto acredita que a casa tem potencial para acolher o espólio e crescer.
«Tem espaço? Tem, com certeza. Isto tudo bem feito dá perfeitamente», afirma.
A exposição, diz, é apenas uma primeira etapa e uma antecipação do que poderá vir a ser visto quando a reabilitação acontecer e as peças regressarem ao espaço.
«Daqui a uns tempos, poderão ver, com a reabilitação da casa, as peças no sítio», antecipa.
«A casa não está vazia»
No final, quando questionada sobre o que gostaria de ler no livro de visitas, Margarida Lagarto volta à ideia que atravessa toda a exposição: a casa vazia não é sinónimo de ausência.
«Gostava pelo menos que alguém dissesse que tinham gostado e tinham percebido a mensagem da exposição (…) Há aqui qualquer coisa. A casa não estava vazia», afirma.
E termina com o desejo que dá sentido a este primeiro gesto público: que o espaço se transforme, com o tempo, numa casa-museu capaz de preservar e mostrar o legado de João Cutileiro em Évora.
«Terem esperança que esta casa venha a ser a Casa-Museu João Cutileiro», conclui.



















