O Dia Mundial da Saúde Mental, assinalado a 10 de outubro, recorda-nos que a saúde mental é um direito humano fundamental, reconhecido pela Organização Mundial da Saúde desde 2001. Mais de duas décadas depois, falar de saúde mental deixou de ser tabu — e isso representa, sem dúvida, uma conquista.
Mas os dados recentes mostram que, em Portugal, este direito está longe de ser uma realidade plena. Cerca de 22,9 % da população já sofreu de alguma perturbação psiquiátrica e 24 % apresenta sintomas de sofrimento psicológico detetáveis. A ansiedade (16,5 %) e a depressão (7,9 %) continuam a ser as perturbações mais prevalentes.
Entre crianças, jovens, adultos e profissionais, os níveis de fadiga emocional e stress mantêm-se elevados. Estas evidências mostram que a saúde mental não é apenas um problema individual ou clínico; é um desafio coletivo, estrutural e social, que exige respostas sustentadas e centradas nas pessoas.
No contexto do ensino superior, esta realidade tem vindo a tornar-se particularmente visível. As instituições registam um aumento consistente de sintomas de ansiedade, cansaço e desmotivação entre os estudantes. Estudos realizados na Universidade de Évora (ESDH/CHRC) revelam que muitos relatam dificuldades de concentração, sono irregular e sentimentos de sobrecarga emocional. Não se trata apenas de gerir provas e avaliações, mas de enfrentar um conjunto de pressões que afetam a saúde física e emocional.
A investigação realizada mostra diferenças claras entre estudantes ao longo do percurso académico e entre géneros. A saúde mental tende a deteriorar-se com o avanço dos anos de curso, sendo os períodos intermédios e finais os mais críticos. Os rapazes referem uma melhor perceção da sua saúde física, muitas vezes associada a uma maior prática de atividade física. Já as raparigas apresentam níveis mais elevados de burnout, fadiga cognitiva e desgaste emocional. Paralelamente, os hábitos de sono, alimentação e atividade física tornam-se progressivamente menos saudáveis, comprometendo o bem-estar e o desempenho académico.
Estes resultados reforçam a ideia de que a saúde mental dos estudantes não depende apenas de esforço ou “resiliência individual”. Os contextos formais e informais, as redes de apoio disponíveis e a cultura académica que se constrói nas universidades são determinantes fundamentais.
Por isso, não basta reconhecer o problema. É urgente agir. São necessários programas de promoção da saúde mental que sejam sensíveis às diferenças de género e às fases críticas do percurso académico, com enfoque na prevenção precoce. Entre as medidas prioritárias estão estratégias de gestão do stress e prevenção do burnout, o incentivo a estilos de vida saudáveis, apoio psicológico e comportamental acessível e ações de reforço da literacia em saúde mental, como os programas de Primeiros Socorros em Saúde Mental (PSSM) e o fortalecimento das redes de apoio dentro e fora das universidades.
Promover a saúde mental no ensino superior não é um extra nem um luxo. É uma condição essencial para garantir o sucesso académico, a qualidade de vida dos estudantes e comunidades universitárias mais saudáveis, resilientes e solidárias.
Adelinda Candeias
Professora Associada Escola de Saúde e Desenvolvimento Humano da Universidade de Évora



















