A história das Courelas da Torre, no concelho de Redondo, cruza séculos de ocupação, heranças e trabalho agrícola contínuo. Hoje, este território mantém a ligação às raízes, mas incorpora práticas que refletem uma nova forma de viver a terra. A família Falé tornou este espaço num projeto agrícola onde cada recurso tem um destino e onde todas as etapas se articulam num ciclo próprio.
A propriedade atual, herdada de gerações anteriores, começou a ganhar forma no final do século XIX. Nessa altura, o antigo património da coroa foi sendo dividido em pequenas parcelas. Uma delas foi adquirida pelo bisavô da família Falé, que investiu o prémio que lhe saíra na lotaria. Desde então, a terra passou de geração em geração, mantendo o nome Courelas da Torre.
Rui Falé, que hoje conduz o projeto, recorda que tudo se baseia na utilização integral do que a terra oferece. «Tentamos aproveitar todos os recursos que temos lá e transformá-los de alguma forma», explica. A vinha fornece a uva que é vinificada na adega instalada na propriedade. Do subproduto da fermentação nasce a aguardente bagaceira. As árvores de fruto, quando produzem ginja ou pera, dão origem a licores preparados com o tempo necessário para extrair cor e aroma. Nas zonas húmidas junto ao ribeiro cresce o poejo, que alimenta outro dos produtos emblemáticos da casa.
A propriedade tem 17 hectares. Para o contexto agrícola do Alentejo, é uma exploração de pequena escala, mas, segundo Rui Falé, tudo se organiza com um propósito: «Sempre foi, desde o início do projeto, otimização de recursos». A exploração é certificada em modo de produção biológico. A presença de animais — ovelhas, porcos, perus e galinhas — insere-se neste equilíbrio, contribuindo para a gestão sustentável do solo e para a biodiversidade.
O projeto assenta também na economia circular. «Reaproveitamos as caixas, reaproveitamos as rolhas, fazemos porta-chaves para oferecer aos clientes», descreve Rui Falé. As garrafas usadas são recolhidas para reutilização em parceria com uma empresa de Leiria. Cada ciclo é pensado para reduzir o desperdício e fechar o circuito dos materiais.

Vinhos que expressam a terra
Os vinhos das Courelas da Torre seguem a mesma filosofia. Rui Falé reforça que o objetivo é representar o território: «Os nossos vinhos representam a terra. Um ano agrícola pode chover mais, no outro menos, e tudo o que a terra nos dá é sem químicos». Esta abordagem conduziu à certificação de um vinho puro, produzido sem correções e sem aditivos. «A uva que colhemos é, no final, vinho sem qualquer tipo de correção», afirma.
Produzir um vinho puro exige atenção redobrada ao processo: sanidade da uva, higienização da adega e controlo da fermentação. «São os três elementos com os quais nos defendemos na produção destes vinhos», sublinha Rui Falé. O resultado é um produto que, segundo ele, deve ser provado em contexto gastronómico, onde melhor se percebem as suas características.
Entre os vinhos da casa destaca-se o Assinatura, disponível em versão tinto e branco. Cada um reúne todas as castas da propriedade. «Queríamos ter no mercado um vinho que nos representasse enquanto empresa, enquanto família, enquanto propriedade», explica. As garrafas têm três rótulos diferentes, simbolizando a família, a propriedade e a vinha. Para Rui Falé, quem leva uma garrafa leva também uma narrativa: «Cada garrafa tem uma história lá dentro».
A marca, o território e o contacto direto com o público
Além da produção, a estratégia da família passa pela comunicação direta com quem visita a região. A abertura de uma loja no centro histórico de Évora é parte desta escolha. «Temos que comunicar muito bem o produto. Não podemos comunicar só com redes sociais. Temos de comunicar de forma pessoal», afirma Rui Falé. Évora, com forte presença de visitantes nacionais e internacionais, tornou-se o ponto de contacto ideal.
O enoturismo é um objetivo presente, mas ainda por concretizar. As quebras de produção em anos como 2020 atrasaram investimentos previstos. «Tivemos que começar do ano zero», reconhece, explicando que, apesar de produzirem desde 2013, considera que o projeto tem apenas cinco anos de verdadeira estabilidade.
A identidade como elemento central
No futuro, Rui Falé acredita que o valor dos vinhos será medido pela capacidade de expressar a origem. «Os nossos vinhos dizem uma coisa que é muito importante: identidade», afirma. A ligação entre solo, exposição solar, vinha e práticas agrícolas integra a experiência final. Em cada garrafa, diz, está a expressão do território e da família que o trabalha: «Em cada garrafa está lá a identidade».
As Courelas da Torre tornam-se assim um exemplo de como a história, a terra e as práticas sustentáveis podem convergir num projeto agrícola que se renova sem perder a sua raiz.



















