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Conheceu Niño de Elche no Alentejo. Agora leva a viola campaniça ao palco de Évora

Músico alentejano integra “El Cante Rasgueado”, espetáculo que cruza tradições musicais de Portugal e Espanha e que será apresentado este sábado junto à Sé de Évora.

A viola campaniça vai estar em destaque este sábado, 25 de julho, em Évora, no espetáculo “El Cante Rasgueado”, apresentado por Niño de Elche no Largo Marquês de Marialva, junto à Sé, em mais umevento da Associação Évora_27.

David Pereira é um dos dois tocadores de viola campaniça que integram o projeto, ao lado de músicos ligados ao flamenco. Em palco estarão cinco intérpretes, numa criação que procura aproximar as tradições musicais do Alentejo, da Andaluzia e da Extremadura.

Em declarações ao jornal ODigital.pt, David Pereira explicou que o contacto com Niño de Elche surgiu durante uma residência artística realizada pelo cantor espanhol no Alentejo, em julho de 2025.

Foi nesse período que Niño de Elche conheceu David Pereira e Guilherme Colaço, o outro tocador de viola campaniça que participa no espetáculo, e estabeleceu contacto com o cante alentejano e com o instrumento tradicional.

“Entro neste projeto através do Niño de Elche, que passou pelo Alentejo quando esteve a fazer uma residência artística e teve contacto connosco, comigo e com o Guilherme, que também vai estar presente no espetáculo”, contou o músico.

Encontro começou durante residência artística no Alentejo

O primeiro encontro deu origem a uma colaboração que já passou por outros palcos. Depois da residência artística, os músicos apresentaram o projeto na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, e no Museu do Traje, em Madrid.

A apresentação em Évora representa agora um novo momento do percurso de “El Cante Rasgueado”, integrado na programação promovida no caminho para Évora 2027 – Capital Europeia da Cultura.

David Pereira considera que a atuação assume um significado particular por permitir representar a cultura e as tradições do território onde nasceu o instrumento.

“É muito especial poder representar a nossa terra, a nossa cultura e o Alentejo”, afirmou.

O músico destacou também a forma como Niño de Elche trabalha com as tradições, mantendo a ligação às suas origens, mas procurando novas formas de as interpretar.

Segundo David Pereira, o artista espanhol tem “uma visão de respeito pela tradição”, mostrando, ao mesmo tempo, que essa tradição continua a evoluir e não deve ser entendida como algo imutável ou limitado aos museus.

“Consegue mostrar que essa evolução está viva. Não pertence a um museu. Podemos sempre acrescentar algo”, referiu.

Espetáculo transforma a fronteira numa ponte

“El Cante Rasgueado” cruza o flamenco, o cante alentejano, a viola campaniça e outras expressões musicais associadas aos territórios próximos da fronteira entre Portugal e Espanha.

Para David Pereira, o objetivo do projeto não é apresentar a Raia como uma linha de separação, mas como um território onde existem referências, práticas e vivências comuns.

“Temos a ideia de que a Raia é uma fronteira que separa Espanha de Portugal e aqui o nosso objetivo não é esse. Em vez de uma fronteira, fazemos uma ponte”, explicou.

O músico considera que as tradições dos dois lados partilham elementos ligados à música, às festas, ao convívio e à forma como as comunidades vivem e transmitem a cultura.

David Pereira sublinhou que Portugal e Espanha têm “muitos pontos em comum” e que o espetáculo procura evidenciar essas ligações através do encontro entre músicos portugueses e espanhóis.

O concerto não terá uma estrutura inteiramente fixa. Segundo o tocador, existe margem para a interpretação e para a resposta dos músicos ao que acontece em palco.

“Existe a liberdade de não ser nada estático. O que vai acontecer agora em Évora será um momento único, que não se vai repetir”, afirmou, acrescentando que cada apresentação do projeto acaba por ser diferente.

Viola campaniça tem vindo a conquistar novos tocadores

Natural do Baixo Alentejo, a viola campaniça está associada ao acompanhamento do cante e de outras práticas musicais da região.

David Pereira considera que o instrumento integra a identidade cultural alentejana e entende que a sua presença num espetáculo internacional pode contribuir para aumentar o reconhecimento público da viola.

“Sendo o único instrumento que temos no Alentejo, para além da voz, o destaque vai ser mostrado a outras culturas em Évora”, afirmou.

O músico defendeu ainda que a divulgação da viola campaniça poderá contribuir para um eventual processo futuro de reconhecimento internacional, à semelhança do que aconteceu com o cante alentejano, inscrito pela UNESCO na Lista Representativa do Património Cultural Imaterial da Humanidade.

“A viola campaniça, ouvida neste espetáculo, pode dar um contributo para que, um dia mais tarde, também venha a ser Património da Humanidade, assim como o cante alentejano”, considerou.

David Pereira recordou que, quando começou a tocar, o número de pessoas que dominava o instrumento era reduzido e permitia que os tocadores se conhecessem entre si.

“Quando comecei a tocar viola campaniça, conhecia todos os tocadores. Existiam talvez algumas dezenas e hoje já temos várias centenas”, afirmou.

Para o músico, o aumento do número de praticantes demonstra que o instrumento tem vindo a ganhar espaço e que projetos como “El Cante Rasgueado” podem contribuir para dar continuidade a esse movimento.

“A viola também canta”

A viola campaniça distingue-se pela utilização de cordas de aço e pela forma como acompanha as vozes.

Ao descrever a sonoridade do instrumento, David Pereira explicou que a viola não se limita a marcar o ritmo ou a acompanhar os cantadores, funcionando também como uma voz dentro do conjunto.

“Acaba por ser uma voz que se acrescenta às outras vozes. Estamos a cantar e a viola campaniça é como se fosse outra pessoa a cantar connosco aquela melodia”, descreveu.

Para o músico, essa característica permite afirmar que “a viola também canta”.

A sonoridade da viola campaniça será combinada, em Évora, com as guitarras flamencas, a voz de Niño de Elche e gravações recolhidas junto de comunidades dos territórios envolvidos na residência artística.

Concerto realiza-se junto à Sé de Évora

“El Cante Rasgueado” realiza-se este sábado, 25 de julho, às 21h00, no Largo Marquês de Marialva, junto à Sé de Évora.

O espetáculo integra a iniciativa “O Vagar está em cena”, desenvolvida no âmbito da programação de Évora 2027, e tem entrada livre.

David Pereira deixa o convite para que o público assista a uma apresentação que pretende aproximar as culturas dos dois lados da fronteira.

“Apareçam para desfrutar da cultura, não para separar Portugal e Espanha, mas para nos unir cada vez mais”, concluiu.

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