“Com a designação de canteiros há muitos. Mas com o ofício, a prática e a técnica de canteiro são pouquíssimos”, diz Carlos Filipe (c/som e fotos)

No passado sábado, 23 de Fevereiro, o Cineteatro de Borba recebeu um workshop intitulado “Os Mármores de Borba: evolução histórica e futuro da oficina de canteiro”. Um evento promovido pelo Centro de Estudos de Cultura, História, Arte e Património (CECHAP) e em que foram oradores Armando Quintas, Patrícia Monteiro, José Calado e Carlos Filipe.

ODigital.pt esteve presente e falou com Carlos Filipe, do  CECHAP, que começou por explicar que este workshop procurou “estabelecer um diálogo a partir das intervenções que foram feitas pelos diferentes conferencistas, a parte final foi um debate aberto com todos aqueles que se disponibilizaram a falar sobre o oficio de canteiro, que está deveras ameaçado”, acrescentando que “a tecnologia, a novas técnicas comerciais industriais estão, de certa forma, envolvidas nesta destruição e a verdade é que procuramos sensibilizar sobre o que é o oficio de canteiro mesmo do ponto de vista da economia circular. Porque tudo isto faz, a montante e a jusante, uma ligação plena com a actividade das comunidades.”

Questionado sobre a existência ou não de muitos canteiros na região, Carlos Filipe afirma que “com a designação de canteiros há muitos. Mas com o ofício, a prática e a técnica de canteiro são pouquíssimos. São raros. E é sobretudo isso que nos preocupa porque não há esta noção do que era o ofício de canteiro”, esclarecendo que “o ofício de canteiro era uma escola, levava vários anos e nem todos seriam finalmente canteiros. Muitos deles não passavam de ajudantes do mestre. E é por vezes isto aqui que se estabelece uma confusão porque se virmos vários funcionários numa oficina são todos canteiros. Não! Muitos deles são manobradores de máquinas, são polidores, não tinham a técnica nem o detalhe próprio de um canteiro.”

Para salvar este ofício o historiador indica que é preciso “primeiro conhecê-lo. É isso que Património e História da Indústria dos Mármores – PHIM vem trazer hoje aqui. É necessário fazer um investimento enorme sobre a nossa história”, sublinhando que “a nossa história é essencial para perceber o passado, o presente e definir o futuro. Sem isso não vamos conseguir salvar nada. Portanto trabalho que tem sido a ser lavado a cabo desde 2012 é um profundo levantamento da região, levantando todas as questões, todas as problemáticas, todas as áreas de investigação ligada com o sector dos mármores, e isso depois vai dar-nos aqui uma fonte de informação muito fina que vai definir que políticas devemos utilizar no futuro. Nós temos algumas ideias mas não vale a pena termos ideias se não tivermos conhecimento. E é importante que haja um conhecimento e que depois esse conhecimento seja transmitido.”

Instado sobre a consciencialização porta parte das entidades locais, regionais e nacionais sobre a proteção e valorização deste ofício, Carlos Filipe afirma que “a nossa sensibilidade é que não estão [consciencializados]. A verdade é que somos confrontados nas diversas conversas que temos, quer com entidades públicas quer privadas… Nota-se que são sensíveis… Não sabem…Porque não existia trabalho profundo sobre o que foi a importância deste sector e isso é que tem sido o maior problema. Isso levanta algumas questões de diálogo que não são fáceis.”

Por fim o historiador esclareceu o trabalho que tem sido desenvolvido pela CECHAP no sentido de valorizar este ofício, dizendo que “desde 2012 temos procurado intervir em todos os foros, valorizando a importância em primeiro lugar do recurso, em segundo lugar dos actores, ou seja os canteiros, os polidores, os empresários… Não podemos esquecer que a melhor oferta e mais económica que qualquer empresa pode expor é ter uma ferramenta que lhe diga o seu produto e reconheça a qualidade do seu trabalho. E isso a história tem feito de forma exemplar valorizando a economia, quer por este lado, dando a conhecer ao mundo inteiro que existe material, técnicos, tecnologia, oficinas, muita vontade de desenvolver um projecto conjunto.”

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