Classificação de laje votiva lusitana descoberta em Arronches é motivo de “orgulho”

Lage Votiva

O arqueólogo e professor da Universidade de Évora (UE) Jorge de Oliveira manifestou-se hoje “orgulhoso” com a classificação da laje votiva em língua lusitana proveniente do Monte do Coelho, em Arronches (Portalegre), como “tesouro nacional”, pelo Governo.

Esta decisão foi quinta-feira anunciada, após reunião de Conselho de Ministros, em que o Governo, na área da classificação do património, aprovou o decreto que classifica diversos bens móveis como bens/conjunto de interesse nacional, sendo-lhes atribuída a designação de “tesouro nacional“.

É uma peça importantíssima, só há na Península Ibérica duas anteriores conhecidas com fonética teoricamente dos lusitanos, esta é a mais completa, a maior”, disse à agência Lusa o arqueólogo, um dos “protagonistas” do “salvamento” desta laje quando foi identificada no Monte do Coelho, em 1997.

Trata-se de uma peça que terá sido escrita no século I a.C. ou II a.C., quando a romanização estava a dar os primeiros passos e o Latim ainda não estava totalmente afirmado, por isso ainda havia lusitanos, com a sua língua, com a sua forma de exprimir e que os romanos passaram a texto com a grafia latina, mas com a sonoridade do que cá se falava na península (Ibérica)”, explicou.

O professor da UE relatou ainda que foi um dos “protagonistas” do salvamento daquela peça quando foi identificada em 1997, numa casa “num forno de cozer pão”.

Em 1997 fui contactado por um amigo de Arronches, Emílio Moitas, que me alertou que tinha aparecido uma inscrição com uma escrita esquisita numa obra no Monte do Coelho”, recordou.

Jorge de Oliveira viajou depois até Arronches e, já no local, encontrou a pedra que “estava num forno de cozer pão”, numa casa de um emigrante que, entretanto, tinha regressado a Portugal.

O emigrante queria colocar a pedra na fachada da sua casa. Depois de muita conversa, convencemos o senhor a não fazer isso e, como não percebia o que lá estava escrito tive de recorrer ao professor jubilado da Universidade de Coimbra José d’Encarnação que confirmou que a escrita era foneticamente lusitana, mas uma inscrição em carateres latinos” disse.

Para Jorge de Oliveira, o “problema” que os especialistas encontram atualmente naquela peça está relacionado com a tradução do seu conteúdo.

“Houve um romano que sabia escrever, um lusitano ditou o que queria que lá escrevesse e ele escreveu a fonética do lusitano com carateres latinos, uma inscrição que é a maior que nós temos, a mais preservada, a mais bem conservada de todas”, referiu.

É o único testemunho da língua lusitana a sério na Península Ibérica, com princípio, meio e fim”, alertou.

Para o especialista “é difícil” perceber a totalidade do conteúdo, mas é percetível entender que “há três divindades indígenas” que são invocadas, “até um ofertante” que seria pastor, e que oferece animais, existindo ainda “algo” que “parece” abordar questões relacionadas com leitões.

Se assim for, e sendo Arronches a “terra dos porcos” como tanto se invoca e havendo já em Arronches pinturas rupestres com representação de um porco, mais valor ainda tem para a vila, dá uma leitura de continuidade desses animais nessa zona”, disse.

Jorge de Oliveira explicou ainda que o emigrante proprietário da casa onde a laje se encontrava ofereceu depois a peça ao município de Arronches, tendo, mais tarde, o Museu Nacional de Arqueologia “apercebido da importância” da peça e “chamou a si a propriedade” da laje.