A comemoração dos 50 anos do Centro Dramático de Évora (CENDREV) é marcada pelo testemunho de quem acompanhou a companhia desde o seu início e pela visão das gerações mais recentes. Rosário Gonzaga, presente desde os primórdios, e Ivo Luz, um dos elementos mais recentes, partilharam com o Jornal ODigital.pt as suas experiências, revelando o impacto e a importância desta instituição cultural para a região e para o país.
Um olhar sobre o início: a visão de Rosário Gonzaga
Rosário Gonzaga recorda o momento de fundação do CENDREV como uma resposta imediata à Revolução de Abril de 1974, com a instalação da companhia em Évora, em janeiro de 1975. «Foi uma ação direta, aproveitando o potencial do teatro italiano e a visão de Mário Barradas», explica. Segundo a atriz, a escola de formação de atores, criada no mesmo ano, foi crucial para moldar uma geração de profissionais capazes de enfrentar os desafios da descentralização cultural.
Para Gonzaga, a continuidade do trabalho em companhia oferece estabilidade e permite desenvolver dinâmicas de grupo produtivas. Contudo, não esconde a preocupação com o futuro: «Estamos sempre em crise, mas atualmente a situação é mais delicada. Sem apoios estatais, é impossível manter estruturas como esta». Apesar das dificuldades, destaca o papel essencial do teatro na educação e na formação de públicos.
A atriz sublinha ainda o privilégio de trabalhar no Teatro Garcia de Resende, que considera «um equipamento teatral espantoso». No entanto, não deixa de apontar os desafios impostos pelas condições do edifício, como a falta de aquecimento adequado durante o inverno, o que torna ainda mais notável a resiliência do público local. «O público é espantoso, muitas vezes enfrentando o frio com mantas, para assistir ao nosso trabalho», acrescenta.
Gonzaga também enfatiza o impacto da companhia no desenvolvimento da licenciatura em Estudos de Teatro na Universidade de Évora: «Acredito que o nosso trabalho deu um empurrãozinho importante para a criação desta formação, que foi a primeira no país», destaca.
A paixão renovada: o testemunho de Ivo Luz
Ivo Luz chegou ao CENDREV em 2018, após uma experiência em coprodução que o levou a apaixonar-se pela região e pela história da companhia. «Foi a ideia de descentralização cultural e a utopia que ela representa que me trouxe até aqui», afirma. O ator destaca o contraste entre a realidade instável dos freelancers e a oportunidade de integrar uma equipa que trabalha em conjunto há décadas.
Luz considera que a fixação de estruturas culturais no interior do país é vital: «É necessário criar condições para que artistas se estabeleçam e contribuam para a comunidade local, cruzando culturas e fomentando a criação artística». O ator, que agora reside em Arraiolos, descreve o processo de integração como natural e gratificante: «Eu vim para ficar três meses e estou cá desde 2018. Senti-me bem acolhido pelos meus colegas, pela cidade e pela comunidade», confessa.
O ator sublinha ainda a importância de trabalhar para audiências fora dos grandes centros urbanos: «No Porto e em Lisboa, muitas vezes trabalhamos apenas para o nosso pequeno círculo. Aqui, no Alentejo, há a oportunidade de cruzar culturas e desenvolver algo verdadeiramente único», observa.
Sobre o futuro, manifesta confiança: «Este projeto tem de ser maior que nós. Espero estar aqui daqui a 50 anos, celebrando uma companhia ainda mais forte e relevante». Luz enfatiza que projetos como o CENDREV precisam de continuidade para consolidar o impacto cultural e social que têm na região e no país. «Este é um projeto de vida. Ele já é maior do que a equipa fundadora e deve continuar a crescer, atravessando gerações», afirma.
Passado, presente e futuro
O CENDREV, desde a sua fundação, tem sido um pilar da cultura em Évora e no país. As histórias de Rosário Gonzaga e Ivo Luz refletem a continuidade e a renovação de uma companhia que atravessa gerações, mantendo-se fiel à sua missão.
Apesar dos desafios financeiros e das incertezas, o compromisso dos seus membros demonstra que o teatro continua a ser uma força vital na transformação social e cultural do país. A celebração dos 50 anos do CENDREV não é apenas um marco histórico, mas um convite à reflexão sobre a importância da descentralização cultural e do investimento contínuo nas artes como ferramenta de educação e inclusão social.
«O público é a alma do teatro, mesmo quando nos critica. Sem ele, o teatro não existe», conclui Rosário Gonzaga, reforçando a ligação essencial entre a companhia e a comunidade. Por sua vez, Ivo Luz acrescenta: «Estamos aqui para construir algo que perdure e inspire futuras gerações».



















