Arqueologo Rui Mataloto aponta Reguengos de Monsaraz como referência do megalitismo no Alentejo

Rui Mataloto explica ao Jornal ODigital.pt o trabalho desenvolvido no concelho e considera que Reguengos de Monsaraz pode ser entendido como uma “capital do megalítico” pela densidade e pela relação histórica do território com estes monumentos

Mais de 4.500 referências arqueológicas existentes em diferentes fontes foram analisadas, confrontadas e relocalizadas para chegar aos 1.545 sítios reunidos na nova Carta Arqueológica de Reguengos de Monsaraz. Um trabalho iniciado em 2020 e que pretende deixar ao município uma base fiável para a proteção do património e para o ordenamento do território.

Rui Mataloto, arqueólogo e um dos autores da “Carta Arqueológica de Reguengos de Monsaraz – De Tempore Antico”, juntamente com André Pereira, explicou ao Jornal ODigital.pt que o ponto de partida apresentava uma realidade particularmente complexa.

“Havia um enormíssimo ruído, onde especialmente o André conseguiu reunir mais de 4.500 referências que depois tínhamos de condensar naquilo que efetivamente existia no território”, afirmou.

Mais de 4.500 referências tiveram de ser confrontadas com o terreno

Reguengos de Monsaraz já tinha sido objeto de vários trabalhos arqueológicos ao longo de décadas, incluindo investigações realizadas antes e depois da construção da barragem de Alqueva.

Essa acumulação de informação criou, segundo Rui Mataloto, um conjunto documental extenso, mas nem sempre suficientemente preciso para ser utilizado diretamente na gestão do território.

“O nosso primeiro trabalho foi tentar condensar toda essa informação, compreender e colocá-la no território, colocá-la no terreno”, explicou o arqueólogo ao Jornal ODigital.pt.

A equipa procurou confirmar se as referências existentes correspondiam efetivamente a sítios arqueológicos identificáveis e determinar a sua localização.

Rui Mataloto deu como exemplo um sítio que surgia na documentação com quatro designações e quatro localizações diferentes, apesar de se tratar de uma única realidade arqueológica.

“Era impossível de manter, porque tínhamos quatro problemas, quando na realidade ele existe como um único sítio arqueológico”, explicou.

Carta pretende servir o PDM e a proteção do património

Um dos objetivos definidos desde o início foi criar uma base de informação que pudesse ser utilizada pelo município no ordenamento do território.

Rui Mataloto explicou ao Jornal ODigital.pt que era necessário produzir “um documento que fosse fiável” e que pudesse servir simultaneamente para o planeamento e para a salvaguarda do património arqueológico.

A correta localização dos sítios assume particular importância quando a informação é integrada nos instrumentos de gestão territorial.

“Um sítio que está mal localizado é um sítio que não conseguimos proteger”, salientou.

O arqueólogo lembrou ainda que uma localização incorreta pode gerar condicionantes sobre propriedades onde, na realidade, não existe qualquer vestígio arqueológico.

Por isso, acrescentou, uma das prioridades passou por “dar fiabilidade à informação” existente e voltar ao terreno para localizar os monumentos com os meios disponíveis atualmente.

Trabalho começou em 2020

A elaboração da Carta Arqueológica começou em 2020, ainda durante o período da pandemia de covid-19.

Rui Mataloto recordou que esse contexto criou dificuldades, mas permitiu também à equipa percorrer extensas áreas do concelho num período em que existia menor circulação de pessoas.

Os levantamentos realizados no terreno foram depois cruzados com décadas de estudos, inventários e documentação arqueológica.

Para o arqueólogo, a apresentação da carta representa simultaneamente o encerramento dessa fase e o início de um novo trabalho.

“É certamente um ponto de chegada, mas principalmente um ponto de partida para novas realidades”, afirmou ao Jornal ODigital.pt.

Reguengos como “capital do megalítico”

Os resultados reunidos na Carta Arqueológica reforçaram também a leitura de Rui Mataloto sobre a importância do megalitismo no concelho.

“Reguengos é de facto uma capital megalítica, e uma capital megalítica pela concentração e pela densidade que existe neste território”, afirmou.

O arqueólogo ressalvou que existem concelhos com um número superior de monumentos, mas considera que poucos apresentam a mesma combinação entre densidade, continuidade histórica e presença do megalitismo.

“Há concelhos com mais do que Reguengos, mas poucos têm densidade e poucos têm a história marcada pelo megalítico como Reguengos”, acrescentou ao Jornal ODigital.pt.

A expressão “capital do megalítico” surge, assim, como uma leitura proposta pelo arqueólogo a partir da concentração de vestígios identificados no território e do papel que estes monumentos desempenharam na investigação arqueológica realizada no concelho.

Uma base para continuar a investigar

Apesar dos 1.545 sítios agora reunidos, Rui Mataloto considera que o conhecimento arqueológico do concelho não está encerrado.

Durante os trabalhos ficaram áreas por percorrer e o arqueólogo admite que novos vestígios continuarão a ser identificados.

A Carta Arqueológica passa, por isso, a funcionar como uma base de trabalho para futuras investigações e para a atualização do conhecimento existente.

Segundo Rui Mataloto, o objetivo foi deixar uma estrutura que permita a quem continuar o trabalho “expandir, proteger” e aprofundar o conhecimento arqueológico do concelho.

O arqueólogo associa ainda esse conhecimento à valorização do território, considerando que património, identidade e economia podem ser trabalhados de forma articulada.

A “Carta Arqueológica de Reguengos de Monsaraz – De Tempore Antico” foi apresentada este sábado, 26 de setembro, no Salão Nobre dos Paços do Concelho, no âmbito das Jornadas Europeias do Património.

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