Após a divulgação de que mais de três mil alunos do 1.º ciclo estão sem professor titular em Portugal, o Sindicato de Professores da Zona Sul (SPZS) confirma que a situação no Alentejo segue a mesma tendência. O presidente da Direção, Manuel Nobre, afirma em declarações ao Jornal ODigital.pt, que o problema «não é muito diferente do resto do país», destacando que o distrito de Beja é atualmente o mais afetado na região.
Segundo o dirigente sindical, a escassez de docentes no 1.º ciclo resulta sobretudo da baixa atratividade da carreira, tema central destacado pelo SPZS. Manuel Nobre recorda que este é um problema que «se vem agravando ao longo dos anos» e que afasta jovens profissionais da docência.
Beja destaca-se como o distrito mais afetado
No Alentejo, Beja concentra a maior falta de professores. Manuel Nobre sublinha que «especialmente no distrito de Beja essa situação é mais evidente», embora também existam falhas em Évora e Portalegre.
As escolas relatam dificuldades crescentes em colocar docentes. Segundo o SPZS, as direções recorrem frequentemente a horas extraordinárias para garantir aulas, mas essa solução está a aumentar a carga de trabalho dos professores no ativo. «Muitos deles já estão sobrecarregados e ainda têm mais esse acréscimo», refere Manuel Nobre.
Educação Especial perde recursos para colmatar falhas noutras disciplinas
O SPZS alerta também para situações em que professores da educação especial são desviados para outras áreas, incluindo o 1.º ciclo. Essa prática, explica o dirigente, está a deixar «alunos sem as respostas adequadas e especializadas» em vários pontos do Alentejo.
Segundo Manuel Nobre, esta estratégia é especialmente sentida nos distritos de Évora e Portalegre, onde as escolas tentam responder às necessidades imediatas com os recursos existentes.
Carreira docente perde profissionais e não atrai jovens
O dirigente identifica dois fatores estruturais: professores que abandonaram a profissão e falta de novos candidatos.
Sobre os jovens, Manuel Nobre afirma que «o ensino superior está a formar, em média, 1.400 alunos por ano», enquanto cerca de 4.000 docentes se aposentam anualmente. «Estamos a ver que é um problema que já é grave, mas que se irá agravar», sublinha.
O responsável recorda ainda que muitos profissionais abandonaram a carreira devido à precariedade e às condições de trabalho. «Alguns professores chegaram a andar 20 anos a contratos precários», afirma. Muitos acabaram por procurar outras profissões, deixando vagas que continuam por preencher.
Sindicato pede revisão urgente do Estatuto da Carreira Docente
Para o SPZS, a solução passa pela valorização da profissão. Manuel Nobre considera fundamental rever o Estatuto da Carreira Docente, incluindo alterações salariais, organização do tempo de trabalho e condições de estabilidade. «Para tornar a profissão realmente atrativa, têm que se alterar algumas medidas», defende. Manuel Nobre
A par disso, o sindicato pede medidas abrangentes, e não soluções pontuais. O dirigente critica a falta de alcance de apoios anunciados para deslocação ou habitação: «São medidas que são anunciadas, mas depois, na prática, não chegam».
SPZS avisa que o problema continuará a agravar-se
Mesmo que o Governo avance com alterações, o SPZS alerta para a demora na aplicação das medidas. «O Governo diz que quer rever o estatuto, mas só para ser aplicado no ano letivo 2027/2028», afirma o presidente. O sindicato considera que a revisão poderia avançar já no próximo ano letivo.
Manuel Nobre prevê que, sem mudanças rápidas, o problema se vai intensificar. «A cada ano que passa, a falta de professores vai-se agravando», sublinha.


















