Caminhar até Fátima

Peregrinação a Fátia

Apesar do título, este artigo não é um guia para “caminhar até Fátima”, não é sobre cuidados a ter antes, durante e depois, não é sobre aquilo que move as pessoas a “caminhar até Fátima”, não é sobre ser peregrino e também não é sobre aquilo que facilmente se encontra na internet, quando coloca no Google “caminhar até Fátima”, este artigo tem o titulo que tem, porque assim aumento as possibilidades de o leitor encontrar este artigo na internet quando pesquisar “caminhar até Fátima”.

Nesta introdução, incluindo o título, referi por cinco vezes “caminhar até Fátima”, prometo que não volto a repetir a frase, porque o que vou escrever é sobre aquilo que ninguém explica quando se “caminha até Fátima”, juro que foi a última vez.

Com mais de 30 anos de serviço militar, iniciados em 14 de fevereiro de 1991 em Vale de Zebro, onde calcei pela primeira vez umas “botas da tropa”, nomeadamente umas “botas de Fuzileiro”, sendo importante referir, que são diferentes das normais “botas da tropa”, porque não têm atacadores e sim duas presilhas para as apertar, iniciei então as minhas caminhadas, que no meio militar se chamam “marchas apeadas”.

Assim se iniciou o conta quilómetros, que por esta altura já conta com várias centenas de quilómetros, para não falar de milhares.

Mas a “marcha apeada” que realizei entre 7 e 12 de maio de 2022 foi diferente de todas as que já fiz, e por isso me propôs a escrever este texto, para memória futura.

A idade, a robustez física e a saúde são condições para acesso à vida militar, devendo ser escolhidos os jovens com boa robustez física e boa saúde, porque a condição militar e as missões a cumprir assim o exigem, nomeadamente para a realização das “marchas apeadas”, necessárias nomeadamente nas deslocações até aos locais dos exercícios militares e depois nos teatros de operações em missões reais.

Mas no que diz respeito ao tema do nosso artigo, esqueçam isso tudo, porque as pessoas que se deslocam a pé até Fátima, são tudo o que referi e também nada do que disse, sendo inclusive na sua maioria pessoas com maior idade, sem robustez física e sem saúde, e ainda assim conseguem realizar “marchas apeadas” com a duração de várias dezenas de quilómetros e algumas ultrapassando as duas ou três centenas de quilómetros.

Então como é possível, pessoas que não passariam nos critérios, caso existissem, para realizarem uma caminhada de duas ou três centenas de quilómetros, o conseguem fazer, mesmo sem preparação ou treino, sem o calçado ou roupa adequada, sem saúde e não raras vezes sob condições atmosféricas adversas, sendo neste caso a chuva uma bênção, porque o calor, conforme se sentiu por exemplo este ano de 2022 é o maior inimigo do caminhante.

É possível, e todos os anos somos testemunhas desse facto, onde a superação de todas estas fraquezas estás visível no rosto de todos aqueles que se propõem a realizar tal aventura, na chegada ao Santuário de Fátima.

Há quem caminhe em grupo, maior ou menor, ou sozinho, há quem caminhe com apoio logístico ou sem apoio, transportando tudo o que necessita às costas, por estrada ou por fora de estrada, calçado ou descalço, há quem durma em pensões e hotéis e há quem durma à beira da estrada, sem esquecer aqueles que são ajudados pelas juntas de freguesia,  casas do povo, bombeiros e outas associações, há quem usufrua dos vários restaurantes que existem ao longo dos vários percursos e há quem confecione a sua própria alimentação, há quem faça seis ou sete dias de caminhada e há quem, só faça uma etapa até Fátima.

Tudo se vê a caminho de Fátima, novos, velhos, magros, gordos, ricos, pobres, homens e mulheres, mas todos portugueses, é raro ver estrangeiros, é uma coisa nossa, ao contrário dos Caminhos de Santiago, que são internacionais, nomeadamente portugueses, espanhóis e franceses, os caminhos de Fátima são nossos e muito nossos, inclusivamente os turistas questionam os caminhantes sobre o que se passa, quando os encontram na estrada, porque não percebem o que está a acontecer, ao testemunhar este êxodo na mesma direção de vários milhares de cidadãos portugueses.

Vêm-se pessoas que fazem a caminhada pela 26ª vez e aquelas que é a primeira vez, vêm-se aquelas que se prepararam, mas também aquelas que não realizaram qualquer treino, aquelas que têm o calçado e o equipamento adequado, e aquelas que não, sendo nesta altura importante referir que não são as pessoas que estão a repetir a caminhada ou as que têm o melhor equipamento, as que estão com um ar mais descansado, e aquelas que estão a fazer o percurso pela primeira vez e sem experiência nenhuma, as que estão mais aflitas, sendo quase sempre o contrário. 

É neste fator de insucesso que reside o melhor que esta aventura tem, ou seja, ninguém à partida está derrotado ou fadado a não chegar, só porque não cumpriu ou cumpre os requisitos “para dar conta do recado”, porque mesmo contra todas as probabilidades, tod@s chegam ao destino.

Na terminologia militar quando queremos enaltecer alguém porque cumpriu determinada missão, dizemos que teve coragem, abnegação, espirito de sacrifício e disciplina, e se o fez em grupo, também é referida a camaradagem e a entreajuda, sendo justo que tod@s aqueles que se propõem a realizar esta aventura, são merecedores da totalidade dos adjetivos atrás referidos.

Sou testemunha disso mesmo, porque tive este ano o privilégio de integrar um grupo de mulheres, onde para além de mim só outro homem integrava esse grupo, constituído por 16 mulheres novas e menos novas, baixas e também altas, magras e menos magras, mas todas lindas por dentro e por fora, que mesmo nunca tendo cumprido o serviço militar, quando gritava “em coluna de marcha”, rapidamente de alinhavam no percurso e iniciavam a marcha à voz de “frente marche” (esta voz nunca a disse, mas podia ter dito).

Sou testemunha que “a logística ganha guerras” e também é imprescindível para quem quer chegar ao Santuário de Fátima, porque mesmo aqueles que não contam com apoio externo, carregam às costas o seu próprio apoio logístico, à semelhança daquilo que fazem as nossas “tropas de operações especiais”, que são autossuficientes, durante determinado período de tempo.

Sou testemunha que qualquer pessoa consegue “cumprir a missão” de chegar ao Santuário de Fátima, partindo seja de onde for, mais longe ou mais perto, com ou sem preparação, porque têm a vontade e a motivação para o fazer, conforme se diz na terminologia militar, mas que neste caso as pessoas chamam de Fé.

Não interessa quantas bolhas, quantas dores e quantas mazelas se tem, porque tudo isso faz parte da caminhada, sendo essencial para alivio dessas dores, o apoio sanitário prestado por várias organizações, onde se inclui a Ordem de Malta.

Tod@s chegam ao destino, porque a chegada, é recompensa suficiente para o sacrifício que se enfrentou durante o percurso e ninguém fica para trás.

À chegada há choro, risos, abraços, beijos e palmas, muitas palmas, sendo obrigatório os peregrinos que já estão no Santuário aplaudir os que vão chegando.

E no final, entre tod@s foram criados laços de amizade, tal e qual como acontece na recruta e que ficam para a vida, mesmo entre aqueles que nunca se tinham visto.

Por: Rogério Copeto