Os produtores de vinho de talha de Cabeção (Mora) estão a exigir uma certificação específica que permita identificar o produto nos rótulos das garrafas, de forma a valorizar e diferenciar este método tradicional de vinificação. Atualmente integrado na classificação de Vinho Regional Alentejano, o vinho de talha carece de uma distinção que destaque a sua autenticidade e história.
Vítor Marques, Grão-mestre da Confraria do Vinho de Talha de Cabeção, destacou a importância desta certificação durante a XXVIII Prova do Vinho Novo, que decorreu de 24 a 26 de janeiro. «O consumidor tem direito a saber o que está a comprar. Fiscalizem, controlem, mas deixem-nos colocar nos rótulos o que é verdade: vinho de talha», afirmou.
O vinho de talha é produzido segundo um método ancestral que remonta à presença romana na Península Ibérica. A vinificação em talhas de barro, aliada a uma intervenção mínima, resulta num vinho natural e de sabor único. «É puro sumo de uva fermentado, sem produtos químicos em excesso. Na sua maioria, apenas contém sulfitos em percentagens muito baixas», explicou o Grão-mestre.
Apesar da crescente procura por este tipo de vinho, principalmente devido à sua autenticidade, os produtores enfrentam limitações impostas pela regulamentação vigente. «Hoje, a Comunidade Europeia obriga a que todos os componentes do vinho sejam descritos nos rótulos. Concordamos com essa transparência, mas também queremos que seja reconhecido o que realmente temos: um vinho de talha», sublinhou.
Para os produtores locais, a falta de certificação representa um risco para a tradição. Segundo Vítor Marques, é essencial diferenciar o vinho de talha de outras categorias para garantir a sua sustentabilidade e valor no mercado. «Não queremos dizer que é melhor ou pior que outros vinhos, apenas que é diferente. E é isso que queremos ver refletido nos rótulos», afirmou.
A situação é agravada pelo envelhecimento da população e pela perda de terrenos destinados à viticultura. Nas últimas décadas, a área de vinhas em Cabeção reduziu-se significativamente, passando de 500 artigos cadastrados para apenas 128 hectares. «A certificação é também uma forma de atrair mais produtores e preservar o património que ainda temos», defendeu o Grão-mestre.
Nos últimos anos, o vinho de talha tem conquistado crescente reconhecimento internacional. O mercado norte-americano identificou o produto como um nicho de elevado valor, o que motivou as grandes casas vinícolas nacionais a retomarem o interesse por esta tradição. «Foi preciso que os americanos valorizassem o vinho de talha para percebemos o que estamos a perder. Hoje, quase todas as grandes casas têm já uma produção de vinho de talha», observou Marques.
Este crescente interesse reforça a necessidade de uma certificação clara. «O consumidor procura autenticidade e qualidade. Com uma certificação, podemos garantir ambas e destacar o vinho de talha como uma verdadeira experiência cultural e gastronómica», concluiu.
A reivindicação pela certificação do vinho de talha continua a ser uma prioridade para os produtores de Cabeção, que veem nesta medida um caminho para proteger e valorizar uma tradição que é, acima de tudo, parte integrante da identidade da vila e do Alentejo.



















