A chuva não travou o movimento nas ruas de Borba. A manhã começou com pessoas a circular entre tascas e tabernas, copo na mão, ao som dos «Garridos» e dos «Fora d’Horas». O percurso, integrado na Festa da Vinha e do Vinho, voltou a reunir habitantes e visitantes em torno de um ritual que atravessa gerações: fazer “as 11”.
Em Borba, o vinho não é apenas produto. É encontro, conversa, memória coletiva. Essa ligação profunda esteve no centro das declarações do presidente da Câmara Municipal de Borba, Pedro Esteves, que sublinha que este circuito representa mais do que um hábito. «É a nossa forma de estar na vida, a forma como encaramos o vinho e como socializamos à volta dele», afirma, reconhecendo que esta vivência continua a marcar o concelho.
As tascas como espaço de vida comunitária
As ruas estreitas receberam dezenas de pessoas que repetiram o trajeto habitual: entrar, provar, petiscar e seguir caminho. O presidente destaca que esta dimensão comunitária é essencial para o futuro da festa. «Só conseguimos mostrar a forma como nós somos se estivermos cá», sublinha, defendendo uma maior participação local para manter o espírito do evento.
O percurso contou com cerca de uma dezena de estabelecimentos. Pedro Esteves admite que há trabalho a fazer para recuperar espaços que marcaram a história social de Borba. «Vamos tentar abrir algumas tabernas que estão fechadas, para que possamos fazer esta visita de forma tradicional», revelou, adiantando que essa intenção poderá avançar já para a próxima edição.
O desafio do vinho novo
Entre cada tasca, repetia-se a pergunta que, ano após ano, se ouve neste circuito: já provou o vinho novo? O presidente responde com naturalidade. «Claro que sim. Em todos os sítios faço questão», diz, com humor contido sobre o ritmo da manhã.
Mas o vinho novo é hoje um desafio. A sua produção tornou-se menos frequente, o que reduz a oferta disponível no circuito. «Vamos perdendo essa característica da existência de vinho novo», admite Pedro Esteves, que pretende recuperar essa tradição. Recorda que, há cerca de 15 anos, era possível prová-lo em várias tabernas da cidade. «Conseguimos manter essa tradição com o apoio da Câmara e com o esforço de quem ainda produz. Vamos ver como conseguimos replicar isso no futuro.»
Um ritual que resiste ao tempo
Ao longo da manhã, chegavam grupos vindos de vários pontos do país. Uns pela curiosidade, outros pelo espírito da festa. A diversidade agrada, mas Pedro Esteves insiste que a essência só se preserva com a participação dos borbenses. «Precisamos de mais gente de Borba aqui. Porque, se não estivermos cá, a essência perde-se.»
No final do percurso, a música cruzava-se com o cheiro dos petiscos e com o rumor das conversas que voltavam a encher as tascas. No meio do movimento, ficava evidente que o circuito não é apenas um evento. É um ritual que preserva a identidade de Borba e que continua a renovar-se, mesmo em dias de chuva persistente.

























































































