Portugal poderá necessitar de mais de 7 gigawatts (GW) de capacidade adicional de flexibilidade, caso recorra sobretudo a soluções de curta duração, para absorver a produção renovável excedente prevista para 2030 e 2035.
A conclusão consta do primeiro Relatório de Análise de Necessidades de Flexibilidade em Portugal, elaborado sob coordenação da Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos (ERSE), com a participação da REN, da E-REDES e da Direção-Geral de Energia e Geologia.
O estudo avalia a capacidade futura do sistema elétrico para adaptar a produção e o consumo à variabilidade das fontes renováveis, tendo como anos de referência 2030 e 2035. A análise abrange apenas Portugal continental e deverá servir de base à definição de um objetivo nacional indicativo para a flexibilidade não fóssil.
Desperdício renovável poderá atingir seis TWh
De acordo com o relatório, o desperdício anual de energia renovável poderá situar-se entre 2,7 e 4,3 terawatt-hora (TWh) em 2030, correspondendo a 3% a 5,5% da produção renovável considerada nos diferentes cenários.
Para 2035, os valores estimados oscilam entre 1,4 e seis TWh, o equivalente a 1,2% a 5,8% da produção renovável.
O desperdício corresponde à energia renovável cuja produção é limitada por falta de consumo, restrições do sistema ou impossibilidade de armazenamento. Segundo o documento, esta situação deverá ocorrer sobretudo entre as 08:00 e as 18:00, período associado a uma maior produção solar.
A ERSE esclarece que as estimativas representam um limite superior das necessidades, uma vez que o Plano Nacional de Energia e Clima não estabelece um valor máximo admissível para o desperdício de energia renovável.
Soluções de maior duração exigem menos potência instalada
A capacidade necessária depende da duração dos recursos utilizados para armazenar energia ou ajustar o consumo.
Caso sejam utilizados recursos com autonomia entre duas e oito horas, como baterias eletroquímicas ou mecanismos de gestão do carregamento de veículos elétricos, a capacidade adicional necessária será, na maioria dos cenários, superior a 7 GW.
Para soluções com um rácio entre energia e potência de 50 horas, o estudo estima que dois a três GW adicionais poderão reduzir o desperdício para valores próximos de zero em 2030.
Mesmo com tecnologias capazes de disponibilizar energia durante 200 horas, o sistema necessitará de uma capacidade adicional entre um e três GW, consoante o cenário.
Entre as soluções analisadas encontram-se baterias, centrais hidroelétricas com bombagem, resposta do lado do consumo, bombas de calor, eletrolisadores e armazenamento de hidrogénio.
O relatório salienta, contudo, que as necessidades não deverão ser satisfeitas por uma única tecnologia, mas através da combinação de diferentes recursos.
Interligação com Espanha reduz necessidades do sistema
A análise identifica a interligação elétrica com Espanha como um dos principais elementos de flexibilidade do sistema português.
Num cenário em que a capacidade de interligação fosse limitada a 10% dos valores considerados no estudo, o desperdício de energia renovável em 2030 poderia aumentar para valores entre 7,2 e 12,7 TWh, cerca de três vezes mais do que no cenário de referência.
A redução da capacidade prevista de eletrolisadores também conduz a um aumento do desperdício. O documento explica que estas instalações foram consideradas consumos flexíveis, capazes de absorver eletricidade em períodos de excesso de produção.
Rede de distribuição apresenta necessidades de flexibilidade
Ao nível da rede elétrica, a REN não identificou necessidades adicionais de flexibilidade na rede de transporte para os anos analisados, por considerar que as novas ligações previstas dispõem de capacidade firme e não deverão originar congestionamentos.
Na rede de distribuição, a E-REDES estima necessidades de flexibilidade a subir que totalizam 48,7 megawatts em 2030 e 56,8 megawatts em 2035.
Estas necessidades correspondem à capacidade de aumentar a produção ou reduzir o consumo em zonas específicas, de modo a responder a limitações locais da rede.
Quanto às variações rápidas da produção renovável, designadas por rampas de geração, o relatório conclui que as necessidades não satisfeitas deverão ser reduzidas. O estudo não determinou necessidades de flexibilidade de curto prazo, por considerar que os dados e a metodologia disponíveis não permitiam obter resultados representativos.
Relatório deverá ser atualizado a cada dois anos
A elaboração do documento decorre de legislação europeia que determina a realização de avaliações nacionais de flexibilidade para períodos entre cinco e dez anos.
Os resultados deverão contribuir para a definição de uma meta nacional de flexibilidade não fóssil, a incluir numa futura atualização do Plano Nacional de Energia e Clima.
O relatório não identifica barreiras significativas à entrada de novos recursos de flexibilidade no mercado, embora assinale oportunidades de melhoria ao nível dos serviços de sistema, dos mercados locais de congestionamento e dos procedimentos de ligação à rede.
















