A resposta à falta de habitação e a adaptação das cidades às alterações climáticas não podem ser feitas à custa da identidade dos territórios. A posição foi defendida por Avelino Oliveira, presidente da Ordem dos Arquitectos, em declarações ao Jornal ODigital.pt, em Évora, durante as comemorações do Dia Regional do Arquiteto.
Para o responsável, os arquitetos estão no centro das transformações relacionadas com a habitação, o ordenamento do território e a sustentabilidade, mas devem assegurar que os projetos respeitam as características culturais, ambientais e sociais de cada região.
“Não podemos perder identidade”
Avelino Oliveira considera que a arquitetura desenvolvida no Alentejo deve responder aos novos desafios sem perder a ligação às características da região.
“Fazer um edifício de arquitetura no Alentejo, nestes territórios, não é a mesma coisa que fazê-lo noutra parte qualquer do mundo”, afirmou, sublinhando que essa diferença exige “um saber, um conhecimento disciplinar absolutamente fundamental”.
O presidente da Ordem dos Arquitectos defendeu que os projetos devem aproveitar “os valores endógenos, culturais e identitários” dos territórios. “Nós não podemos perder identidade”, acrescentou.
Segundo Avelino Oliveira, esta atenção às características locais deve estar presente tanto na construção de novos edifícios como no planeamento das cidades e na gestão dos recursos.
Arquitetos têm papel na resposta à falta de habitação
A habitação foi identificada como um dos principais desafios atuais da profissão. O presidente da Ordem dos Arquitectos considera que os profissionais têm de participar de forma direta na procura de soluções.
“Desde logo, contribuir para mitigar o problema da habitação”, afirmou, recordando que, apesar do debate público sobre o tema, são os arquitetos que têm de projetar os edifícios e ajudar a concretizar as respostas.
Avelino Oliveira acrescentou que o trabalho dos arquitetos passa também por preparar as cidades e os edifícios para as próximas gerações. O objetivo, explicou, é desenhar territórios “mais sustentáveis, mais resilientes” e com maior capacidade para responder às alterações climáticas e sociais.
Água, energia e mão de obra entre os desafios
A utilização eficiente dos recursos é outra das preocupações destacadas pelo responsável. Avelino Oliveira apontou a necessidade de melhorar o planeamento, o ordenamento do território e a gestão de materiais, água e energia.
A escassez de mão de obra no setor da construção obriga também a procurar novas soluções, através da inovação e da industrialização dos processos.
Para o presidente da Ordem, os arquitetos precisam de se manter atualizados e de ter acesso a instrumentos que lhes permitam inovar, incluindo nas regiões com menor densidade populacional.
“É preciso providenciarmos essa capacidade de manterem essa inovação mesmo nestes territórios e continuarem sempre a trabalhar em prol das populações, dos cidadãos e dessa melhoria”, afirmou.
Ordem alerta para excesso de legislação
Avelino Oliveira abordou ainda as sucessivas alterações legislativas que afetam o setor, considerando que o problema não está na ausência de normas.
“Às vezes não temos falta de legislação. Temos legislação a mais”, afirmou, defendendo um acompanhamento próximo das alterações para garantir a sua aplicação.
Segundo o responsável, as mudanças relacionadas com as políticas de habitação, o IVA e os regulamentos administrativos têm impactos diretos na elaboração e submissão dos projetos.
Avelino Oliveira salientou que os arquitetos estão na primeira linha da aplicação dessas alterações, razão pela qual considera necessário reforçar o apoio à prática profissional e a formação dos membros da Ordem.
Homenagem a arquitetos com 25 e 50 anos de carreira
As declarações foram prestadas durante as comemorações do Dia Regional do Arquiteto, realizadas na sede da Secção Regional do Alentejo da Ordem dos Arquitectos, na Torre do Salvador, em Évora.
A sessão incluiu uma homenagem aos profissionais que completaram 25 e 50 anos de ligação à Ordem dos Arquitectos ou à anterior Associação dos Arquitectos Portugueses.
Avelino Oliveira considerou que a iniciativa permite reconhecer “as longas carreiras” e o contributo destes profissionais para o serviço público, para os clientes e para os cidadãos.
O presidente da Ordem destacou ainda o trabalho desenvolvido pelos arquitetos no Alentejo e a importância da proximidade entre a estrutura regional e os seus membros, num território marcado pela dispersão geográfica.




















