O Cineteatro Florbela Espanca, em Vila Viçosa, recebe o 3.º Encontro Transfronteiriço de Arquivos, uma iniciativa que reúne profissionais, investigadores e entidades de Portugal e Espanha em torno do tema “Arquivos, trabalho colaborativo e transição digital”.
O Jornal ODigital.pt esteve na sessão de abertura e falou com Jorge Janeiro, subdiretor-geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas, que explicou que a escolha de Vila Viçosa resulta da ligação histórica e geográfica do concelho ao território raiano.
“Depois de termos realizado o encontro em Huelva, em 2024, teríamos que fazer em Portugal. Vila Viçosa é uma terra raiana e, portanto, fazia todo o sentido fazer-se aqui este encontro”, afirmou Jorge Janeiro, destacando ainda as “tradições” e a “cultura bem portuguesa” do concelho, mas também os laços históricos com Espanha, nomeadamente com a Extremadura e a Andaluzia.
Cooperação entre Portugal e Espanha
Segundo Jorge Janeiro, o objetivo destes encontros passa por “partilhar conhecimentos, boas práticas, aprender em conjunto e, se possível, desenvolver projetos transfronteiriços”.
O responsável adiantou que já existem projetos em preparação, relacionados com documentação existente dos dois lados da fronteira. “Há muita documentação dos dois lados da fronteira que, sendo património de cada país, se refere a cidadãos, empresas e outras instituições dos dois países”, sublinhou.
Para o subdiretor-geral, trata-se de “um património comum que deve ser valorizado, deve ser conhecido e salvaguardado”, sendo essa uma das principais razões para a realização destes encontros.
Na sessão de abertura, Jorge Janeiro classificou o encontro de Vila Viçosa como “o exemplo da estreita cooperação transfronteiriça entre Portugal e Espanha”, com destaque para a ligação entre o Alentejo, através da Universidade de Évora e da Rede de Arquivos do Distrito de Évora, e a Andaluzia.
Arquivos são construídos todos os dias
Questionado sobre a forma como os arquivos são hoje vistos pela sociedade, Jorge Janeiro defendeu que “o arquivo é uma construção diária” e que deve refletir a sociedade no seu conjunto.
“Não há pessoas importantes e pessoas não importantes. Todos somos importantes e os arquivos devem refletir a sociedade no seu conjunto, como um espelho”, afirmou ao ODigital.pt.
O responsável destacou ainda que os arquivos devem garantir que as gerações futuras possam compreender o passado, mas também reconhecer o presente. “Se todos temos lugar na sociedade, se existimos, então os arquivos não devem fazer mais nada do que respeitar a existência da própria sociedade”, acrescentou.
O papel dos arquivistas na era digital
Jorge Janeiro alertou também para os desafios colocados pela produção massiva de informação e pela transição digital. Segundo o responsável, o arquivista deixou de ser visto como “aquela figura isolada num monte de papéis velhos” e passou a acompanhar “toda a gestão do ciclo de vida dos documentos”.
“Hoje é mais necessário do que nunca”, afirmou, sublinhando que, num tempo marcado pela desinformação, os arquivistas têm um papel essencial na garantia da integridade documental.
“Os arquivistas são os guardiões, não digo da verdade, mas da garantia de que os documentos são aquilo que dizem ser”, referiu Jorge Janeiro, defendendo a necessidade de assegurar que os documentos são “íntegros”, “verdadeiros” e não foram alvo de manipulação.
Na sua intervenção, o subdiretor-geral reforçou que, na sociedade da informação, os arquivos são “o garante dos direitos e obrigações de todos nós” e assumem um papel central nas organizações e nas sociedades.
Vila Viçosa no centro do debate ibérico
O 3.º Encontro Transfronteiriço de Arquivos coloca Vila Viçosa no centro da discussão ibérica sobre preservação documental, cooperação entre instituições e desafios da transição digital.
Para Jorge Janeiro, estes encontros permitem aos profissionais de arquivo de Portugal e Espanha partilhar práticas e conhecimentos num momento em que a velocidade da produção de informação aumenta o risco de perda de dados.
“Daí a importância destes encontros transfronteiriços”, afirmou, defendendo que os arquivos e os arquivistas têm hoje uma responsabilidade acrescida num “combate interminável contra o esquecimento”.





































