A ligação ferroviária de alta velocidade pode alterar a capacidade de Évora para atrair profissionais qualificados, empresas e investimento, aproximando a cidade de Lisboa e reforçando a sua integração na Península Ibérica. A posição foi defendida por Álvaro Beleza, presidente da SEDES, em declarações ao Jornal ODigital.pt, esta quinta-feira, à margem do encontro de reflexão “Incerteza Global – Como Proteger e Valorizar os Territórios”, realizado no Palácio D. Manuel, em Évora.
Para o presidente da Associação para o Desenvolvimento Económico e Social, a ferrovia deve assumir um papel central na estratégia de desenvolvimento do país. “Eu não me canso de dizer que a alta velocidade é o investimento estrutural mais importante para Portugal”, afirmou Álvaro Beleza ao ODigital.pt, considerando que o país apresenta um atraso nesta área, não apenas na alta velocidade, mas também nas ligações ferroviárias de média distância, suburbanas e interurbanas.
Évora surge, neste contexto, como um dos territórios que, na perspetiva de Álvaro Beleza, poderá beneficiar diretamente de uma redução significativa dos tempos de viagem. “Quando houver alta velocidade será meia hora de Évora a Lisboa”, afirmou, acrescentando que uma ligação com estas características poderá tornar mais fácil “atrair para aqui engenheiros, médicos, inteligência artificial, aeroespacial, o que for”.
O responsável relaciona esta infraestrutura com um dos desafios enfrentados pelas cidades de dimensão intermédia: a atração e fixação de quadros qualificados. Segundo explicou ao ODigital.pt, uma ligação ferroviária rápida permitiria que a distância entre Évora e Lisboa deixasse de representar o mesmo condicionamento para quem trabalha na capital ou necessita de se deslocar regularmente.
“Daqui a Lisboa, tanto faz morar em Évora como no Estoril”, exemplificou Álvaro Beleza, sustentando que o tempo passado num comboio pode também ser utilizado para trabalhar, ao contrário de uma deslocação em automóvel. “Isto muda completamente as perspetivas”, afirmou.
“As cidades do meio” podem beneficiar da alta velocidade
Álvaro Beleza apontou ainda o exemplo espanhol para defender que os efeitos económicos da alta velocidade não se concentram necessariamente nas maiores cidades. A propósito de uma conferência realizada recentemente em Lisboa, referiu que, perante a experiência das ligações ferroviárias espanholas, a conclusão transmitida foi a de que “quem ganhou foi Saragoça e Lérida”.
“As cidades do meio, as que ganham são as do meio”, declarou, utilizando esse exemplo para enquadrar o papel que Évora e Badajoz poderão assumir numa futura rede de alta velocidade entre Portugal e Espanha.
O presidente da SEDES defendeu, por isso, que a estratégia ferroviária portuguesa deve ser articulada com Espanha e enquadrada numa visão ibérica. “Nós não podemos pensar só Portugal, nós temos que pensar primeiro Península Ibérica”, afirmou, acrescentando que os dois países devem desenvolver uma estratégia conjunta para as ligações ferroviárias. Sobre a bitola, considerou que Portugal e Espanha devem assegurar compatibilidade e apontou a bitola europeia como solução que permitiria a continuidade das ligações para outros países europeus.
Neste âmbito, Álvaro Beleza revelou que a SEDES está a preparar uma cimeira envolvendo Lisboa, Porto, Madrid e Barcelona, cuja primeira edição deverá realizar-se em fevereiro, em Barcelona, seguindo-se encontros nas restantes cidades. A iniciativa pretende colocar em discussão o desenvolvimento económico e social e a articulação entre as principais áreas urbanas da Península Ibérica.
Regionalização também entra na discussão sobre o território
Questionado pelo ODigital.pt sobre a forma de valorizar os territórios, Álvaro Beleza apontou também para a organização administrativa do país e retomou a posição da SEDES sobre a criação de regiões administrativas.
Na sua perspetiva, o Alentejo deveria dispor de uma estrutura regional com capacidade de decisão sobre matérias que atualmente dependem da administração central. “Toda a região do Alentejo devia ter um governo regional que pudesse governar o hospital, a universidade. Não tem que ir a Lisboa”, afirmou.
Álvaro Beleza defendeu um modelo assente em cinco regiões e duas áreas metropolitanas, considerando que estruturas com maior escala territorial permitiriam reforçar a capacidade de decisão e a participação cívica. Para o presidente da SEDES, estes passos devem ser enquadrados num processo com “mais democracia, mais transparência, mais participação cívica”.
Durante a conversa com o ODigital.pt, o responsável abordou ainda a produção descentralizada de energia, defendendo uma maior instalação de painéis solares em habitações e empresas, nomeadamente através de mecanismos que permitam o acesso das famílias com menores rendimentos.
O encontro promovido pelo Núcleo Distrital de Évora da SEDES reuniu intervenções sobre riscos globais, resiliência territorial e criação de riqueza, tendo Álvaro Beleza sido responsável pelo encerramento da iniciativa.




































