Alentejo: Projeto pioneiro de 59,6M€ pretende inovar e desenvolver a indústria dos mármores

Coordenador do Stone Cast

O Alentejo é conhecido pelas suas paisagens, pela sua gastronomia e pelas suas gentes, mas também é conhecido pelos seus mármores, um recurso natural de forte potencial e de forte procura internacional.

Dado o potencial económico da indústria dos mármores para a região Alentejo e tendo em conta a oportunidade única que Portugal tem nos próximos meses com o Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), está em andamento um projeto único e pioneiro que pode transformar o sector dos mármores e criar valor acrescentado à região do Alentejo, nomeadamente à zona de Vila Viçosa, Borba, Estremoz, Alandroal e Sousel.

Trata-se do projeto “Stone Cast”, que vai ser candidatado ao PRR e que pode trazer para este sector cerca de 60 milhões de euros.

A ideia é pegar nos tradicionais modelos de negócio desta indústria e reinventar

Numa grande entrevista concedida ao ODigital.pt, José António Porfírio, coordenador do projeto “Stone Cast”, explica que “é um projeto que nasce de uma série de conversas com a indústria, de uma série de questões e desafios que se colocam ao desenvolvimento desta indústria”, sendo que “não lhe chamaria propriamente problemas”, pois “hoje em dia não há problemas, há desafios e, portanto, é a procura e a busca de encontrar soluções para estes desafios, numa perspetiva de permitir à indústria dar um salto em matéria de competitividade, em matéria de desenvolvimento”, frisando que “falamos aqui essencialmente de dois problemas críticos que neste momento se colocam a esta indústria, nomeadamente a questão da competitividade como problema base e depois uma questão ambiental, que tem a ver com a geração de escombreiras que o desenvolvimento do negócio naturalmente provoca, há ainda a questão da mão de obra e, portanto, nós entendemos que para responder a estes desafios é essencial começar com um desenvolvimento na área industrial, que permita à indústria desenvolver o tema da economia circular, reaproveitando estas escombreiras, transformando e criando valor económico a partir das mesmas, com produtos que têm valor económico”, considerando também que “a partir de um reforço da imagem deste setor, melhorando as condições de trabalho, melhorando as condições de exploração destes negócios, nomeadamente através da transformação digital e colocando a indústria num paradigma claro de Indústria 4.0, haverá um maior desenvolvimento de toda a região”.

O coordenador deixou claro que “a ideia é pegar nos tradicionais modelos de negócio desta indústria e reinventar”, revelando que para isso “temos um conjunto de parceiros, são mais de 50 parceiros, começando pelas autarquias locais e pelas instituições universitárias, que são oito instituições de ensino superior, com mais 17 ou 18 institutos de investigação associados às mesmas quer regionais, quer a nível nacional e depois todo um conjunto de parceiros a começar pelo líder deste consórcio, que é uma grande tecnológica que vai naturalmente apostar neste tema da transformação digital do setor.”

É um projeto pioneiro que vai no sentido da inovação e do desenvolvimento

Questionado se este projeto assentava numa base de tecnologia que seria implementada na indústria, José António Porfírio salientou que “é um projeto pioneiro que vai no sentido da inovação e do desenvolvimento”, frisando que “foi um dos requisitos colocados aos parceiros mais ligados à investigação e mesmo à tecnologia, pois, não há que inventar muito, dado que este é um setor que já tem muito investimento em estudos e em investigação, logo há que transformar essa investigação em inovação e desenvolvimento e, portanto, tudo será canalizado em parceria com as indústrias do setor precisamente com essa inovação e desenvolvimento.”

“Primeiro há que apostar nas competências e na qualidade daquilo que é feito

Sobre o valor do projeto, o responsável avançou com um “valor global na ordem dos 59,6 milhões de euros, dos quais temos cerca de 13% para a investigação, 16% para capacitação, a nível de recursos humanos essencialmente, seja a nível dos próprios empresários, seja ao nível da formação da mão de obra do setor, e obviamente o grosso do investimento destes 59,6 milhões é para investimento produtivo, portanto, são cerca de 55%” referindo ainda que “há uma parcela reduzida, porque o sector tem tido já muito investimento nessa área, em termos de divulgação e promoção e essa é uma área essencial, mas isso deve-se fazer à posteriori, pois, primeiro há que apostar nas competências e na qualidade daquilo que é feito, no desenvolvimento das capacidades intrínsecas do sector e só depois então avançar para o tema da divulgação e promoção”. Neste projeto há “também uma componente muito forte que é essencial para este sector, que é um sector já por natureza exportador, no sentido da qualificação e internacionalização do próprio setor, portanto, há aqui um investimento na ordem dos 11% do valor global”.

O investimento central que está aqui previsto, (…)é produzir papel a partir do pó de pedra

Este projeto que foi apresentado ao PRR assenta em vários investimentos de monta que “são essenciais para a mudança de paradigma competitivo do sector”, nomeadamente “o investimento central que está aqui previsto, é numa indústria de “stone paper”, ou seja, produzir papel a partir do pó de pedra. Essa indústria vai ser central, porque é ela que vai permitir que as escombreiras se transformem em valor económico, valor acrescentado para o setor”, revelou.

Outro dos investimentos previstos neste projeto é “um investimento que é complementar ao anterior, que está em paralelo com o mesmo, que é investimento numa indústria de casas modulares ou painéis modulares, em que vamos também pegar nos próprios resíduos atuais do setor ou subprodutos, como lhe queira chamar, e transformar também  para dar valor acrescentado e, neste campo, temos parcerias com projetos já em curso, temos patentes já obtidas a este nível e temos uma parceria com a Faculdade de Arquitetura da Universidade de Lisboa, no sentido de transformar esta indústria numa indústria de qualidade num produto desenvolvimento de produto qualidade”, disse José António Porfírio.

Outro dos projetos avançados pelo coordenador e que também faz parte do projeto é “o investimento das finas espessuras, que no fundo é o reforço da sustentabilidade da mudança de competitividade do setor e, portanto, são três investimentos industriais que são o cerne de todo o projeto de desenvolvimento que está aqui associado a este projeto que foi apresentado ao PRR”.

Nesta entrevista, o coordenador do projeto deixou claro que “queremos transformar esta indústria numa indústria que funciona no paradigma 4.0 e para isso, desde a lavra da pedreira até a comercialização, todo o processo de transformação digital vai ser crítico, além disso e paralelamente, para o suportar vamos ter toda uma componente de investigação e desenvolvimento, que vai passar por exemplo por levantamentos de tudo o que é a nível geológico de cada pedreira, bem como a forma de otimização dos cortes logo à partida da pedra para diminuir as perdas do setor e depois o próprio condicionamento dos produtos, o corte dos produtos a forma de comercialização, ou seja, tudo isso vai ser trabalhado, investigado e com a ajuda também da transformação digital vai ser otimizado.”

Torna se essencial conseguir promover e desenvolver mais o valor acrescentado do produto

Sendo este um sector por natureza de exportação considera o coordenador do projeto que “torna se essencial conseguir promover e desenvolver mais o valor acrescentado do produto e reforçar a nossa presença nos mercados internacionais, pelo que nós acreditamos que a questão da internacionalização é fácil de reforçar, caso se consiga à partida mudar o paradigma de funcionamento deste setor e dar lhe esta inovação e este cunho, esta imagem que nós pretendemos com esta com este projeto claro.”

Não chega só trabalhar a indústria em si, é preciso trabalhar toda a envolvente da indústria

“Não chega só trabalhar a indústria em si, é preciso trabalhar toda a envolvente da indústria e, portanto, este é um projeto é um pacto de inovação, porque mais do que só trabalhar a indústria pretende trabalhar a região e pretende trabalhar toda a imagem da indústria a partir daquilo que é o seu potencial para o desenvolvimento da própria região”, destacou.

É um projeto que quer promover esta inclusão de todo o setor

O projeto que foi apresentado ao PRR e que agora começa a ser divulgado e o consequente desenvolvimento que pode acontecer, “depende não só dos empresários, mas depende de todo um conjunto de agentes que gravitam à volta do setor, que dele beneficiam ou por ele são prejudicados e, portanto, é preciso envolver todos estes agentes no sentido do desenvolvimento daquilo que se preconiza”, acrescentando que “o projeto já conta com cerca de 50 parceiros, em que temos pelo menos 15 indústrias do setor, essas indústrias foram as primeiras que vieram, no entanto, o projeto continua em aberto a receber novos parceiros, pois, é um projeto que quer promover esta inclusão de todo o setor e esta participação ativa do setor neste envolvimento, mas para além das indústrias do setor temos outras indústrias que gravitam à volta do setor sejam indústrias maquinaria, de Ambiente, de Engenharia, de Arquitetura etc.”

Neste desenvolvimento projetado do setor dos mármores e de toda a região deverá haver também “uma envolvente muito forte das indústrias culturais e criativas, pois, fundamental para mudança da imagem deste setor este envolvimento, este cunho e este contributo que as indústrias culturais e criativas podem dar uma indústria como este do setor dos mármores”, disse o coordenador, que revelou que “o turismo, por exemplo, é uma das áreas que está previsto neste projeto, pois nós temos um dos parceiros que é uma instituição de ensino superior, que é a Escola Superior de Hotelaria e Turismo do Estoril, que nos vai ajudar a promover todos os planos turísticos para a região ligados ao setor e que vai reforçar dinâmicas que já existem no território, como é o caso por exemplo da Rota do Mármore, como é o caso da atividade que o CECHAP tem vindo a desenvolver, ou seja, todas estas instituições que vão ser convidadas vão encaixar naquilo que são as dinâmicas locais já existentes.

Questionado sobre o envolvimento de entidades políticas locais e regionais neste projeto, José António Porfírio salientou que “pelo menos cinco autarquias estão aqui diretamente envolvidas daqui do centro daquilo que é a Região Mármores e é este anticlinal e além destas entidades públicas que são as autarquias, temos um promotor desde a primeira hora que é a ADRAL – Agência de Desenvolvimento Regional do Alentejo, temos a CCDR também desde o princípio envolvida neste projeto, temos o Parque Alentejo Ciência e Tecnologia como também um dos promotores e parceiros efetivos deste projeto e temos por exemplo um banco que não foi parceiro oficial mas que é um promotor também do projeto e que está ligado a todo desenvolvimento rural e regional”.

É um setor que precisa urgentemente de um reforço da mão de obra e o projeto vem precisamente ajudar a requalificar

O capital humano é também outros dos eixos que está patente neste projeto, nomeadamente na capacitação e qualificação da mão de obra, pois, e uma área que “vive uma situação que consideramos ser crítica, até porque com a legislação recentemente saída, há uma grande percentagem da força de trabalho deste setor que está em risco entre reformar no prazo de dois/três anos e, portanto, este é um setor que precisa urgentemente de um reforço da mão de obra e nesse sentido o projeto vem precisamente ajudar a requalificar a mão de obra do setor, ajudar a atrair nova mão de obra, quer mão de obra qualificada, quer eventualmente até mão de obra de outros países, que possam vir ajudar a reforçar aquilo que é o potencial produtivo do setor” e portanto, “é importante que na mudança de paradigma para a indústria 4.0, haja uma clara noção de que é preciso profissionalizar a gestão destas das empresas e trazer mão de obra qualificada, não só a nível técnico, mas também ao nível de gestão das organizações que permita a estas indústrias crescerem e virem contratar mais mão de obra e mão de obra mais qualificada”, destacando o facto do “Instituto Emprego e Formação Profissional ajudar também, disponibilizando-se na íntegra para ajudar a promover toda esta mudança, bem como a própria ANIET (Associação Nacional da Industria Extractiva e Transformadora) se disponibilizou a fornecer toda a formação que fosse necessária para o desenvolvimento e qualificação da mão de obra do setor”.

Ainda no âmbito da atração de mão de obra para o setor, “este projeto pretende utilizar o já referido investimento numa indústria de casas modulares, utilizando o subproduto dos mármores, para a construção de habitações para estas pessoas que possam vir a trabalhar no sector”, referiu-nos o responsável.

Já sobre os prazos de execução do projeto, foi-nos revelado que “o que está definido no PRR tem aqui um horizonte até 2025”, frisando que “nós estamos no terreno, estamos a começar a montar tudo aquilo que é a estrutura do projeto, desde logo a confirmar os parceiros que desde o início se disponibilizaram para participar no projeto e depois passará por implementação de uma sociedade de desenvolvimento industrial, que será um mecanismo que permitirá a implementação do projeto no terreno e se tudo correr bem talvez até ao final deste ano ou logo no princípio do próximo esta sociedade de desenvolvimento industrial esteja constituída com as suas áreas de governação com as suas áreas de atuação para pôr em prática aquilo que está preconizado no projeto.”

Acreditamos que a ideia vai ser bem percebida pelos decisores políticos e que o projeto vai ser apoiado

Após terminar a execução do projeto, garante o coordenado que “este projeto eu penso que tem todas as condições para em 2025 se calhar estar em velocidade de cruzeiro e poder vir a crescer e nomeadamente a alargar-se a outras regiões que é um dos princípios que este projeto tem”. Caso este projeto não seja aprovado no âmbito do PRR, o responsável deixa claro que “agora iniciou-se na região um movimento a nível dos empresários e das instituições que dificilmente será parado, mesmo que haja um PRR que não corra como nós esperamos, mas acreditamos que a ideia vai ser bem percebida pelos decisores políticos e que o projeto vai ser apoiado porque ele está imbuído de tudo aquilo que é o espírito do PRR, mas sim claramente, isto não foi um projeto que nasceu por causa dos fundos, é um projeto que os fundos podem ajudar a desenvolver, portanto, essa ideia para nós é essencial”.