Li recentemente, com atenção e alguma perplexidade, o artigo “As musiquinhas alentejanas que escondem o Alentejo atrás do biombo”. Como economista, professor e, acima de tudo, alentejano, sinto o dever de trazer para a discussão uma perspetiva que, no texto em causa, ficou arredada das escolhas editoriais. Não se trata de negar a existência de problemas, que os há, e graves, mas de recusar um retrato unidimensional que, a pretexto de desmontar um postal turístico, acaba por erguer um outro, este feito de desespero e estereótipo.
O Alentejo que conheço não é o do biombo, mas também não é o da tragédia anunciada. É uma terra de contrastes, certamente, mas também de transformação silenciosa e de resiliência que os números começam a revelar.
Vejamos os dados económicos, que é a minha linguagem. Entre 2015 e 2025, o Produto Interno Bruto (PIB) per capita da região convergiu com a média nacional a um ritmo superior ao de qualquer outra região do continente. O investimento em energia renovável transformou o Alentejo no maior produtor de eletricidade limpa do país, atraindo projetos de investigação e desenvolvimento que fixam quadros qualificados em cidades como Évora, Beja ou Sines. O aeroporto de Beja, tantas vezes ridicularizado, tem vindo a afirmar-se como plataforma logística e de manutenção aeronáutica, gerando emprego especializado onde antes só havia eucalipto e solidão.
Não ignoro, obviamente, as assimetrias. O desemprego jovem no Baixo Alentejo continua acima da média nacional. O interior profundo sofre com a desertificação e o envelhecimento. A pobreza, de facto, persiste em bolsas que envergonham qualquer um de nós. Mas transformar estas realidades complexas num cenário de “suicídio, racismo e radicalismo político” sem contextualização ou rigor estatístico é fazer da exceção a regra e do grito a análise.
O racismo existe em todo o país, e o Alentejo não é exceção. Mas será justo ignorar que é nos concelhos alentejanos com maior percentagem de imigrantes que se registam os melhores indicadores de revitalização demográfica? O radicalismo político? As últimas quatro eleições legislativas mostram um eleitorado alentejano a votar maioritariamente em partidos do arco da governação, com uma abstenção, curiosamente, inferior à da Área Metropolitana de Lisboa.
O que mais me incomoda, enquanto economista, é a ausência de propostas. O diagnóstico, ainda que parcial, até poderia ser ponto de partida para uma discussão útil. Mas o artigo esgota-se na denúncia, como se apontar o dedo à paisagem fosse suficiente para a transformar. Não é.
O Alentejo precisa de políticas públicas diferenciadas, de investimento em acessibilidades digitais e físicas, de valorização da sua fileira agroindustrial com base na inovação e não apenas no baixo custo laboral, de respostas para a saúde mental que não se limitem a contar suicídios. Precisa, sobretudo, que não o reduzam a uma imagem, seja ela a do calendário turístico ou a do retrato de fatalidade.
Escrevo isto sem qualquer tom de defesa corporativa da terra. Ser alentejano não me obriga a um patriotismo acrítico, mas obriga-me, isso sim, a recusar que falem por mim sem me ouvirem. O Alentejo não é um biombo, mas também não é um necrotério. É uma região viva, em mudança, com problemas graves mas com soluções ao alcance, desde que o olhar de quem de fora nos observa seja tão complexo quanto a realidade que julga descrever.
Por: João Santos, Economista e professor de Economia.

