Alentejano aprende a esquiar num ano e quer estar nos Jogos Olímpicos de Inverno

Atleta José Cabeça
Foto: @ze.cabeca

A neve é rara na sua região, mas, mesmo assim, o alentejano José Cabeça aprendeu a esquiar no espaço de um ano e conseguiu a proeza de abrir uma vaga para Portugal nos próximos Jogos Olímpicos de Inverno.

Há muitas pessoas que pensam: como é que é possível ele, num ano, passar de não saber fazer esqui para estar a lutar para ir aos Jogos Olímpicos e ser o primeiro português a abrir uma vaga olímpica em Mundiais“, brinca José Cabeça.

Sem deixar o triatlo, o atleta de 25 anos conta à agência Lusa que começou a “aventura” do esqui de fundo “há cerca de um ano e meio“, em França, onde viveu, durante “dois meses e meio“, para “poder treinar“, porque “é impossível em Portugal“.

Poucos meses depois, em fevereiro deste ano, no Campeonato do Mundo de esqui nórdico, na Alemanha, alcançou o ponto alto da sua precoce carreira na modalidade, com uma pontuação que abriu uma vaga para Portugal nos Jogos Olímpicos de Inverno Pequim2022.

José Cabeça conta que, antes de começar, já “gostava bastante de ‘cross-country’ [esqui de fundo] e de biatlo“, que só “via na televisão“, e decidiu aventurar-se na modalidade depois dos Jogos de Inverno de PyeongChang, em 2018.

Portugal, lembra o esquiador, tinha então “um português no ‘cross-country’ esqui“, que não tinha nascido no país, o que considera compreensível, porque “é praticamente impossível” treinar a modalidade em “terras lusas“.

Achei que seria uma boa hipótese para tentar ser eu o primeiro português nascido em Portugal a ir aos Jogos Olímpicos de Inverno e, foi aí, que comecei a estudar e a tentar perceber como é que era possível realizar a modalidade”, assinala.

O início não foi fácil, uma vez que Portugal não tem condições climáticas para desenvolver a modalidade, mas José Cabeça “não baixou os braços” e descobriu que podia começar pelo ‘roller ski’, ou esqui com rodas, uma vertente de verão do esqui.

Comecei a treinar essa vertente, sozinho, o que não foi fácil. Passado algum tempo, com bastante trabalho e foco, consegui chegar a um nível técnico que já dava para conseguir treinar, porque, no início, era apenas tentar fazer a técnica e nem me chegava a cansar“, recorda.

Já com prática adquirida no ‘roller ski’, partiu para França, onde “tudo foi diferente”, porque passou a ter acesso às pistas de esqui, e, ao fim de dois meses, até se estreou em competições da modalidade, com as cores de uma equipa local.

Não fiz último, mas foi quase“, lembra o esquiador, com um sorriso.

No início, em terras francesas, sozinho e sem apoio de um treinador da modalidade, confessa que apreendeu a técnica do esqui ao observar outros atletas e até “a ver vídeos” e conseguiu “evoluir” neste desporto.

Apesar de ser esquiador há pouco tempo, José Cabeça sublinha que para trás estão “muitos anos de trabalho”, que “não foram feitos no esqui“, mas sim no triatlo, modalidade na qual começou a competir com 17 anos e ainda se mantém.

Atualmente, os treinos “são baseados numa mistura” entre triatlo e o esqui de fundo, com a atividade desportiva das três modalidades (natação, ciclismo e corrida) a ter “um grande peso” na sua preparação, relata o alentejano.

Treino uma média entre 25 a 30 horas semanais e, como é óbvio, não faço isso só em esqui e utilizo bastante o triatlo para trabalhar a minha capacidade aeróbica e utilizo, talvez um pouco mais, o esqui como forma de melhorar a técnica“, refere.

A viver há pouco mais de seis meses no Dubai, onde é ‘personal trainer’, o esquiador realça que, apesar de continuar a vestir a camisola do Estoril Praia nas provas de triatlo em que participa, a sua vida de atleta é “muito solitária“.

Treino sozinho e o meu treinador, Hélder Milheiras, é cá de Portugal e vive cá“, mas “comunicamos pela Internet” e “temos sorte de a Internet possibilitar a troca de ideias” sobre os treinos, frisa.

Depois de ter começado no karaté, com seis anos, e passado pela natação antes do triatlo, José Cabeça aposta agora no esqui de fundo com o objetivo de estar nos Jogos Olímpicos de Inverno Pequim2022, na China.

Para lá estar, o esquiador ainda tem pela frente “quatro classificações com menos de 300 pontos” e não o assusta o eventual surgimento de “novos atletas” para disputarem consigo esta vaga olímpica.

Com a capital chinesa no horizonte, diz que ainda quer melhorar “a parte da descida” e preparar-se na Noruega para os Jogos Olímpicos, já no inverno deste ano, sem deixar de fora o próximo Campeonato Mundial Ironman 70.3 e algumas provas de ‘roller ski’ e triatlo.