A associação Évora_27 promoveu, esta quinta-feira, 18 de dezembro, a terceira conferência da Academia do Vagar, subordinada ao tema «O tempo livre como paradoxo social. Pensar o skhôlè e o otium hoje». A sessão decorreu no Salão Central Eborense, e contou com a participação da filósofa Agnès Lontrade.
Conferência refletiu sobre tempo, trabalho e capitalismo
Ao longo da conferência, Agnès Lontrade, professora catedrática de Filosofia da Arte e Estética na Universidade Paris I – Sorbonne, abordou a forma como ideais de emancipação associados ao tempo livre se transformaram no seu oposto sob a pressão do capitalismo. A oradora explicou que esta transformação distorceu o sentido original do skhôlè grego e do otium romano, conceitos historicamente ligados ao pensamento, à criação e ao tempo não produtivo.
A reflexão foi desenvolvida em articulação com o conceito de Vagar, entendido como um modo de ser e de estar profundamente associado ao território e à identidade do Alentejo.
Resistência temporal e modelos alternativos de vida
Agnès Lontrade destacou ainda que, desde o século XIX, têm emergido formas de resistência temporal, como a lentidão, a suspensão e o não fazer. Segundo a filósofa, estas práticas permitem conceber modelos alternativos de trabalho, de desenvolvimento sustentável e de relação com o ambiente, integrando sempre uma dimensão estética da existência.
Movimento slow e emancipação temporal
Durante a intervenção, a conferencista sublinhou a importância do movimento slow enquanto proposta de desaceleração dos ritmos de vida. «O movimento slow defende o abrandamento e a diminuição dos ritmos de vida com vista a uma emancipação temporal. Abrange, simultaneamente, a questão social da tomada de controlo do nosso tempo, a questão ética do tempo que reservamos para nós próprios, essencial ao nosso sentimento de liberdade, e a questão política da recusa do primado dos imperativos económicos», afirmou.
O “não trabalho” como elemento essencial
A oradora chamou ainda a atenção para o valor do que designa por «não trabalho», que considera fundamental para a produtividade e para o bem-estar pessoal. «O não trabalho é indispensável ao trabalho. A produtividade não pode prescindir desses momentos em que não se trabalha: pausa para café, conversas de corredor, compromissos pessoais, invenção de tarefas, devaneios, divagações diversas, vagares…», explicou.
Academia do Vagar decorre até 2027
A Academia do Vagar integra a programação da Évora_27 e decorre ao longo de 27 meses, até dezembro de 2027, sob a curadoria de Jacinto Lageira, da Universidade de Paris I – Sorbonne. O projeto tem como objetivo promover o pensamento crítico e a criação coletiva, colocando o conceito de Vagar no centro de uma nova proposta para a Europa e para o mundo.
Além de conferências internacionais, a programação inclui encontros, conversas e workshops com filósofos, sociólogos, antropólogos, artistas e outros pensadores, provenientes de diferentes áreas do conhecimento.
A Academia do Vagar regressa em janeiro de 2026, com uma nova agenda a ser divulgada em breve.


















