A visão para Orquestra Regional do Alentejo

Como é público, exerci durante um ano funções de adjunto político no Ministério da Cultura. Foi nesse contexto que, em 2024, no Palácio da Ajuda, acompanhei a discussão e a preparação das condições para a criação da Orquestra Regional do Alentejo, no gabinete da então ministra da Cultura, Dalila Rodrigues, em articulação com o seu chefe de gabinete, Pedro Rapoula.

Por isso, é com enorme satisfação que vejo uma ideia então discutida e trabalhada naquela altura ganhar tradução concreta através do concurso agora lançado pela atual ministra da Cultura, Juventude e Desporto, Margarida Balseiro Lopes.

É em decisões desta natureza que a política revela utilidade, ao criar respostas para os problemas e transformar possibilidades abstratas em instrumentos concretos de desenvolvimento para os territórios e para as suas populações.

A política cultural não se pode limitar à gestão do que existe, à distribuição rotineira de apoios ou à concentração de recursos nos lugares onde a oferta já é abundante.

Naquele gabinete em 2024 fizemos uma pergunta essencial para que o Estado pudesse atuar: Onde estão os vazios culturais no país?

E, depois, tentamos responder com ambição, instrumentos e continuidade. No caso do Alentejo, havia dois vazios particularmente evidentes.

O primeiro dizia respeito às bibliotecas. Dos cinco municípios portugueses que não dispõem de biblioteca municipal, dois localizam-se no Alentejo, em Marvão e Vila Viçosa. Uma biblioteca não é apenas um edifício com livros, é um lugar de acesso ao conhecimento, de encontro entre gerações, de combate ao isolamento, de estudo, de leitura, de cidadania e de igualdade de oportunidades. Quando falta uma biblioteca, falta uma porta de entrada para a cultura e para a formação permanente.

O segundo vazio tinha uma dimensão regional, porque o nosso Alentejo era a única região do território continental sem uma orquestra regional. Enquanto o Norte, as Beiras e o Algarve dispõem há anos de estruturas orquestrais reconhecidas, com programação, circulação e impacto territorial, o Alentejo permanecia fora dessa rede.

Uma região com a dimensão, a história, o património, a universidade, as escolas de música, as filarmónicas e a vitalidade cultural do Alentejo não podia continuar privada desse instrumento.

A criação da Orquestra Regional do Alentejo é uma decisão de política pública, de coesão territorial, onde o Governo da AD não se limitou a reconhecer o problema, porque criou o enquadramento para o resolver, abriu o concurso através da Direção-Geral das Artes, estabeleceu um apoio de 1,62 milhões de euros para o biénio 2027-2028 e definiu que a futura orquestra deve nascer de uma parceria regional, envolvendo pelo menos cinco municípios alentejanos.

Este ponto merece particular atenção. Uma orquestra regional não deve ser uma instituição fechada sobre si própria, sediada numa só cidade e desligada do restante território, deve ser uma estrutura de circulação, cooperação e presença.

Deve tocar em Évora, naturalmente, mas também em Beja, Portalegre, Elvas, Estremoz, Sines, Moura, Montemor-o-Novo, Serpa, Reguengos, Vila Viçosa, Marvão e tantas outras localidades, chegar aos teatros municipais, às escolas, aos conservatórios, às igrejas, aos espaços patrimoniais, aos públicos habituais e àqueles que ainda não têm o hábito de assistir a concertos.

É essa a diferença entre programar cultura e construir uma política cultural.

A Orquestra Regional do Alentejo terá a missão de formar públicos, aproximar jovens da música, levar repertórios a comunidades que raramente têm acesso a eles, valorizar compositores portugueses, estabelecer pontes com coros, bandas filarmónicas, academias e escolas de música, promover residências artísticas, afirmar uma identidade musical ligada ao território do Alentejo e a profissionalização da música e do músico alentejano.

Em Portugal, e particularmente fora dos grandes centros urbanos, muitos jovens concluem formação musical exigente sem encontrarem condições para construir uma carreira. Estudam durante anos, aperfeiçoam um instrumento, participam em bandas, orquestras juvenis, conservatórios ou academias, mas acabam confrontados com a intermitência e a necessidade de abandonar a região onde cresceram.

Esta orquestra regional vai criar precisamente aquilo que falta, a estrutura, a continuidade, a exigência, o horizonte profissional e o reconhecimento internacional.

Cria emprego para músicos, maestros, compositores, técnicos de palco, produtores, gestores culturais, mediadores e profissionais de comunicação, e por isso, gera uma estrutura regular de ensaios, concertos, formação e programação. Permite que o trabalho musical passe a integrar um projeto artístico estável, com responsabilidade, planeamento e progressão.

Esse é um ganho de causa decisivo.

Profissionalizar a música assegura condições para que a qualidade artística cresça, para que o repertório se alargue, para que se cultivem práticas coletivas exigentes e para que o talento formado no Alentejo tenha razões para ficar, regressar ou trabalhar a partir da região.

A existência de uma orquestra regional também aproxima a formação da profissão, os estudantes da Universidade de Évora, dos conservatórios, das academias e das escolas de música deixam de olhar para a carreira artística como algo que necessariamente acontece noutro lugar. Passam a ter diante de si uma referência profissional, uma instituição onde podem aprender, assistir, colaborar e trabalhar.

É assim que se forma um ecossistema cultural.

Num território de baixa densidade, esse efeito é ainda mais importante. A criação da Orquestra Regional do Alentejo deve, portanto, ser entendida como a reparação de uma ausência histórica e um investimento no futuro.

Há quem ainda veja a cultura como um adorno, mas a cultura não é o luxo que vem depois do desenvolvimento, é uma das condições do desenvolvimento.

Foi esta decisão dos Governos da AD que permitiu identificar os vazios culturais e corrigir esta desigualdade territorial.

A Orquestra Regional do Alentejo vai existir e confirma que as ideias discutidas, trabalhadas e preparadas podem tornar-se realidade, demonstrando que a política, quando tem visão e execução, muda mesmo positivamente a vida dos territórios e das pessoas.

A Orquestra Regional do Alentejo é uma vitória da cultura e uma vitória do Alentejo.

Luís Nunes dos Santos

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