A história do redondense António Carmelo Aires com a arte pastoril começou há mais de 40 anos, numa rua estreita de Évora, entre móveis antigos e peças esquecidas de outras eras. Na loja de Bernardino Piteira, um negociante de velharias conhecido no meio eborense, encontrou a peça que lhe despertaria uma paixão que dura até hoje: uma cadeira de madeira trabalhada, com uma leveza que parecia desafiar a própria matéria.
«Encantei-me com aquela cadeira. Aquele detalhe, aquela leveza… tinha algo de especial. Depois vi que tinha um monograma e uma data. Não sabia ainda, mas era o início de uma longa jornada», recorda.
Desde então, António Aires nunca mais parou. De feiras de antiguidades a encontros com pastores e artesãos, foi reunindo um espólio que hoje conta com mais de 200 peças, das quais cerca de 80 estão expostas no Núcleo de Arte Pastoril de Redondo.
Mas mais do que objetos, colecionou histórias, técnicas e memórias de um modo de vida que está a desaparecer.

Peças com alma
No núcleo, cada peça exposta carrega um fragmento da vida rural alentejana. Entre as suas favoritas, há uma que continua a intrigar estudiosos.
«Esta peça aqui… não sabemos exatamente para que servia. Foi feita em corno bovino, tem aberturas dos dois lados e uma tampa em madeira. Já várias pessoas a analisaram e ninguém chegou a uma conclusão definitiva», explica, manuseando o objeto com cuidado.
A sua interpretação? Uma pequena mala ou um objeto de oferta, talvez para guardar um lenço ou outro bem pessoal.
Ao lado, outros artefactos chamam a atenção pela minúcia do trabalho artesanal. Um conjunto de chavões ou fritadeiras, usados antigamente para marcar os pães no forno comunitário e decorar os bolos da Páscoa, mostra como a arte pastoril estava presente nos pequenos gestos do quotidiano.
«Estas peças eram essenciais. No forno comum, cada família precisava de distinguir o seu pão. E na Páscoa, os bolos tinham as chamadas ‘pintas’, feitas com ovo e pequenas impressões na massa», explica.
O detalhe é um traço comum a muitas das peças, algumas delas com figuras humanas e animais esculpidas com precisão surpreendente.
«Olhe para esta aqui. Tem um desenho tão requintado que parece impossível ter sido feita à mão, sem ferramentas modernas», diz, apontando para uma peça datada de 1894.

O que levou à extinção da arte pastoril?
Se há 100 anos estes objetos faziam parte da vida diária dos pastores e artesãos alentejanos, hoje são relíquias de um tempo que já não volta. Para António Aires, a resposta para este desaparecimento é clara: a mudança da vida rural.
«Antigamente, o pastor passava a semana inteira no campo, sozinho com o rebanho. Nos tempos mortos, pegava num pedaço de madeira ou de corno e começava a esculpir. Era um passatempo, mas também uma forma de expressão», explica.
Hoje, essa realidade já não existe.
«Os pastores de agora, os poucos que ainda há, saem do campo às cinco da tarde, entram no carro e vão para casa. O tempo de contemplação, o tempo para criar, desapareceu», lamenta.
Além disso, os materiais também mudaram. O plástico e os produtos industriais substituíram a necessidade de fabricar à mão. O que antes era feito em madeira ou corno bovino agora surge em resina ou metal barato.
«A arte pastoril foi desaparecendo porque o mundo mudou. Mas essas peças ainda contam uma história. São o testemunho de um tempo em que cada objeto tinha um significado», reflete.

Guardar para o futuro
O Núcleo de Arte Pastoril de Redondo é mais do que uma exposição. É um arquivo vivo da identidade alentejana. Para António Aires, o desafio agora é garantir que este legado não se perca.
«A minha coleção não se fechou. Ainda há peças que vou adquirindo, sempre que encontro algo que me fascine. E há um núcleo lá em cima, com mais 40 ou 50 peças que um dia poderão vir para aqui», revela.
Mas mais do que colecionar, o objetivo é transmitir conhecimento.
«Cada peça conta uma história. Queremos que as novas gerações olhem para estas obras e percebam o que significam, como eram usadas e por quem», diz, com um olhar atento para o futuro.
E assim, o guardião da arte pastoril continua a sua missão, garantindo que um ofício outrora invisível ganha agora um lugar de destaque na memória coletiva.


















